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O Peso da Educação

Que o momento, em termos sociais, económicos e políticos é peculiar, já todos sabemos. No entanto, o que se tem visto por aí é um pouco superior a uma certa peculiaridade, roçando, muitas vezes, o ridículo. Esta questão do financiamento de escolas privadas por contrato de associação é, para mim, uma das questões que está a começar a roçar o ridículo, juntamente, claro, com a revolta contra o José Cid, mas vou-me ficar pelo primeiro caso.

Em primeiro lugar, não só nem a favor de um lado, nem do outro, acho que cada caso é um caso e, sem dúvida que, se existem escolas públicas, com vagas e condições para receber alunos, não faz sentido estar a financiar uma escola a meia dúzia de metros. No entanto, a questão que se coloca é a qualidade do ensino numa e na outra e como se pode melhorar a escola pública para que esta diferença seja minimizada ou, até mesmo, anulada. Honestamente, também, não acredito que seja o corte de perto de 30 milhões de euros no financiamento às escolas em contrato de associação que vai permitir isto, nem sequer as medidas que o Governo já anunciou, como a oferta dos livros do 1º ano no próximo ano.

Os tempos que vivemos são peculiares porque facilmente perdemos o foco daquilo que é realmente importante e concentramos esforços no que é mais acessório, atingindo o absurdo de desperdiçar esforços e recursos preciosos. Num momento em que se devia repensar verdadeiramente a educação, compreender que ela está totalmente desajustada face às necessidades das crianças, face, principalmente, às suas capacidades, perdemos tempo com cerca de 30 milhões de euros. Meus senhores e senhoras, só a Assembleia da República, pelo Orçamento Geral do Estado para 2016, vai gastar quase 96 milhões de euros, e a Presidência do Conselho de Ministros, mais de 124 milhões. Gastam-se mais de 300 milhões de euros no Orçamento para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, quase 94 mil milhões de euros no Ministério das Finanças e apenas pouco mais de 5,5 mil milhões de euros no Ministério da Educação. Acredito que sejam verbas necessárias, até porque grande parte do valor do Orçamento do Ministério das Finanças tem a ver com a gestão da dívida, mas é preciso repensar a prioridade do investimento, compreendendo que é investindo em áreas como a educação, a ciência, a investigação e seu aproveitamento, que outras áreas como o trabalho, a segurança social, as finanças, vêm os seus problemas resolvidos. Investir não significa gastar ao desbarato, significa, sim, pensar num médio/longo prazo, numa estratégia, reajustar e repensar, ouvir e fazer benchmarking.

Investir na educação não é só criar melhores condições de infraestruturas escolares, mas sim ouvir professores e alunos, funcionários e directores, compreendendo as suas necessidades e as suas ideias, deixando um pouco de lado o pressionar, sim, porque ele existe, dum sindicato liderado há décadas pela mesma figura, figura essa que não põe os pés numa sala de aula para ensinar há mais de 30 anos. Investir na educação não é só oferecer manuais escolares ao primeiro ano, quando existe um negócio muito frutuoso e lucrativo por parte das editoras que precisa de ser repensado, pois se há um direito à educação, tendencialmente gratuito, não faz sentido pagarem-se centenas de euros por livros que nem sequer podem ser passados, na prática, de aluno para aluno, pois todos os anos mudam-se programas e inventam-se coisas novas. Investir na educação é repensar programas, não para aplicar no próximo ano, mas sim com uma perspectiva de médio prazo, ajustando-o a miúdos e adolescentes que têm interesses e capacidades completamente diferentes das gerações anteriores. Investir na educação é estar atento ao aluno e às suas capacidades, desenvolvendo competências individuais e não tornando-os carneirinhos. Investir na educação é compreender que são estes miúdos que um dia estarão à frente de empresas, de organismos do Estado, de governos, que são eles quem um dia serão os empreendedores, os visionários deste país.

Face a um conjunto de necessidades que o país tem, mais importante do que aplicar medidas, mais ou menos à pressão, como, honestamente, esta me parece, uma espécie de penso rápido para qualquer coisa, é pensar o futuro, ainda que para isso seja preciso criarem-se diálogos que, a cada dia, parecem mais difíceis, criar pontes onde elas não existem e que, honestamente, acredito que só venham a existir quando os líderes dos vários partidos forem outros, ou quando a composição da Assembleia for diferente.

Independentemente dos argumentos de parte a parte, que são válidos e dignos de todo o respeito, talvez fosse o tempo de, em vez de serem amarelos, azuis ou cor-de-burro-quando-foge, se sentassem todos à mesma mesa para compreender o que existe em ambos os lados, o que se pode fazer melhor, o que se pode agilizar, não por uma questão de negócio (apesar de precisarmos, duma vez por todas, de perceber que todas as áreas da nossa sociedade, na verdade, são negócios, são empresas e que precisam de saber gerir recursos, sob pena de os esgotarem e, se bem me recordo das principais regras da economia, às vezes esquecida por alguns governos e instituições, os recursos são limitados), mas sim pelas crianças, pelos alunos, pelos maiores recursos que este país tem em potencial.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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