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Música

Música portuguesa: muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa

Peixe:Avião, Deolinda, WrayGunn, Da Weasel e Rui Veloso figuravam, em 2009, no cartaz do Monumental Enterro da Gata, em Braga. E foi mais ou menos por essa altura que tomei consciência da abundante presença de bandas portuguesas na minha vida e no meu mp3. Havia um vazio por preencher, onde o reino encantado da música anglo-saxónica permanecia no top de vendas de álbuns musicais, num momento em que sobrevivia uma música portuguesa com crises de identidade e falta de personalidade, com pequenos rasgos de bravura e paixão a despontar aqui e ali, mas sem qualquer eco sonante. Havia espaço para novas sonoridades e para as portas das garagens por esse Portugal fora se abrirem para nós e para o mundo. E assim foi.

Abriram-se as garagens, afiaram-se os lápis, escreveram-se letras, criaram-se set lists, mas sobretudo, houve os destemidos, aqueles que se lançaram para a frente e deram o corpo às balas; aqueles que, apesar de toda a influência da música anglo-saxónica, conseguiram edificar festivais inteiramente com o cunho português; aqueles que arriscaram e colocaram cabeças de cartaz desconhecidas do grande público nos festivais onde predominava – e ainda predomina – a cultura rock/pop/indie internacional. Eram esses mesmos nomes que, na altura, soavam no meu mp3, para onde quer que eu fosse: “Mãe/ Eu já não sou quem era/ Agora tenho a minha guerra / A minha luta privada/ Ainda ouço a canção da lua/ Só já não me afasta do nada.

Só uns anos mais tarde me apercebi que a música portuguesa, tal como a conhecia, estava ganhar um novo fôlego com o aparecimento de músicos e bandas que vieram para ficar e agitar o nosso panorama musical. Trouxeram uma lufada de ar fresco com, por exemplo, a multiculturalidade e adrenalina que transpiram as faixas dos Buraka Som Sistema, com a electricidade rugosa das guitarras dos Best Youth, com a irreverência e batida pulsante das rimas da Capicua, com a estranheza deliciosa de B Fachada ou mesmo a voz inconfundível de Carminho.

Foi também nessa altura que me dei conta do carimbo da Lovers and Lollypops nas músicas que comecei a consumir: Jorge Coelho, Black Bombaim, Long Way To Alaska, Birds Are Indie, The Glockenwise, Duquesa, Alto!, Sequin e por aí fora. Foi ainda essa a minha época dourada dos festivais de verão, com o Paredes de Coura guardado num lugar especial do meu coraçãozinho jovem. Foi também por esses anos, mais precisamente em 2011, que os Homens da Luta apareciam no Festival da Canção, gerando alguma controvérsia, mas gritando ao megafone aquilo que muitos de nós gostaria de exteriorizar.

A par do trabalho das editoras, foi – e ainda é – também graças às promotoras que a música portuguesa ganha um maior destaque nos festivais, com as produtoras portuguesas a mostrarem o que valem na organização e direcção artística destes eventos dos quais se destacam: o Festival Tremor (nos Açores), o Milhões de Festa (em Barcelos), o Semibreve (em Braga), o Super Bock em Stock (em Lisboa), o Festival de Músicas do Mundo (em Sines), o Bons Sons (em Tomar) ou o D’Bandada (no Porto).

A par de tudo isto, há momentos e projectos incontornáveis que têm marcado a forma como olhamos para a música portuguesa e assumimos, perante nós mesmos e os outros, que há um sem-número de artistas que nos aquecem o coração e a alma portuguesa. Vejamos:

  1. O inesquecível momento em que Salvador Sobral vence o Festival da Canção em 2017 com a bela “Amar pelos dois”, escrita por Luísa Sobral, produzida por Luís Figueiredo e elogiada por Caetano Veloso;
  2. A genialidade de Bruno Nogueira que nos apresenta dois grandes projectos que valorizam música portuguesa: o espectáculo Deixem o Pimba em Paz e o programa de televisão Som de Cristal (2015);
  3. O grande projecto “A música portuguesa a gostar dela própria”, de Tiago Pereira que se apresenta como “um dos maiores espólios audiovisuais, de tradição oral e memória colectiva, existentes em Portugal”, e é digno de todos os elogios e mais alguns;
  4. O apuramento de Conan Osíris para representar Portugal no Festival da Canção em 2019 e todo o burburinho que se gerou à sua volta;
  5. Os concertos que já aconteceram, em 2012, dos Ornatos Violeta e que ainda vão acontecer este ano.

A lista poderia continuar, mas o que é certo é que a música portuguesa soube reinventar-se e a pluralidade de artistas e bandas que para isso têm contribuído parecem estar a conseguir dar voz a todas as mudanças sociais, culturais, económicas e políticas, ao mesmo tempo que contribuem para um panorama musical português com identidade própria. Quanto ao meu mp3, esse está guardado, com os seus 2mb de música quase exclusivamente portuguesa.

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Filipa Flores

Sou uma alma inquieta que gosta de andar pela sombra a observar e escutar, para aprender o mais que puder sobre as pessoas, a sua essência, os seus propósitos, gostos e inquietudes. Exprimo-me melhor através da escrita, à boleia do Antigo Acordo Ortográfico. Interesso-me por tudo e mais alguma coisa e gosto de ir em busca do desconhecido.

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