O verão começa a despedir-se, deixando-nos aquele sentimento de perda. Foram dias de viagens, de turistas tranquilos e ruidosos, de idas à praia, talvez já menos frequentes, mas sempre marcados pelo sol. Mas foi, também, tempo de arte: visitámos museus, assistimos a espetáculos e, sobretudo, vivemos mais a cidade ao ar livre. A arte de rua acompanhou-nos, presença constante. Nos muros das praias, nos prédios urbanos, nos portões de garagens. Entre fachadas lisas e paredes cinzentas, surgem manchas de tinta: letras rápidas, desenhos imensos, frases enigmáticas. Em cada canto, uma verdadeira galeria aberta.
A ideia de escrever nas paredes não começa na modernidade. Encontramos vestígios deste gesto na arte rupestre das cavernas, nas inscrições dos templos egípcios, nos desenhos de Pompeia, nos slogans das revoltas estudantis do Maio de 68. No entanto, não podemos confundir estes exemplos com o grafito, tal como hoje o entendemos. Só nas décadas de 1970 e 1980, em Nova Iorque, surgiu o movimento que transformou o grafito em fenómeno global. Jovens das periferias reclamavam a visibilidade que a sociedade lhes negava, pintando comboios, paredes, portões. Um movimento com forte ligação ao hip-hop, ao rap, ao breakdance. Rapidamente se difundiu para a Europa, onde cidades e bairros inteiros se viram tomados por esta nova linguagem visual.
Aos poucos, o grafito deixou de ser apenas borrão para conquistar o estatuto de arte de rua. Entre a assinatura apressada numa ruela e o mural monumental que atrai turistas, cabe um mundo de diversidade. Uns usam pseudónimos e códigos destinados apenas ao seu grupo; outros, como Banksy ou Vhils, conquistam um espaço público mundial e são celebrados em museus e galerias. Há ainda figuras híbridas, como Basquiat, cuja obra transbordou da rua para o circuito artístico tradicional.
Legal ou ilegal, em muros autorizados ou paredes furtivas, o graffity continua a ser uma forma de criatividade popular. Transforma ruas degradadas, dá voz a protestos, ilumina um bairro esquecido. O que começou como marginal, em certos contextos, passou a ser património cultural, objeto de roteiros turísticos e até de políticas municipais de valorização da cidade.
Contudo, continua a existir o reverso. Nem todo o grafito é arte. Muitos muros privados, monumentos e portas de lojas são alvos de vandalismo puro. Além disso, quando o excesso se acumula, o resultado pode ser ruído visual em vez de embelezamento. Entre a liberdade criativa e a ordem urbana, a fronteira é sempre precária. Ainda assim, cada traço, legal ou ilegal, belo ou tosco, é uma conversa entre quem pinta e quem passa. Nos muros inscrevem-se disputas, desejos, mensagens. O espaço público é de todos, mas não pertence a ninguém em particular. Vivemos juntos no mesmo cenário, onde coabitam a cor e o conflito.
A arte é a expressão da imaginação humana livre.
Salvador Dalí
Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
Muito bem!