CinemaCultura

A sedução dos finais inesperados

A esquadra está em estado de sítio, depois de um detetive ter falecido dias antes de se reformar. O seu colega, um tenente alcoólico, rebelde e pai ausente, entrega o distintivo e arma ao seu chefe afro-americano. Condição necessária para resolver crimes na América. Entretanto, o assassino corta a eletricidade da casa, onde a vítima repousa em roupa interior transparente, que ao sentir a presença de alguém, liga o 911 sem sucesso! Ao sair de um clube de strip, o detetive, passa instintivamente pelo bairro da vítima, ouve gritos e rebenta a fechadura, o assassino escapa, todavia o detetive acaba por se envolver com a vítima…

O bandido, ex-militar expert em explosivos, coloca na bomba um timer gigante, reforça o suspense… 10 segundos, vermelho ou azul… O polícia corta o fio certo, 2 segundos antes da detonação, mas o fugitivo mistura-se numa manifestação e esconde-se num prédio abandonado. O vilão dispara 40 tiros e apenas um acerta de raspão no braço do herói, que num disparo exímio resolve o assunto! E viveram felizes para sempre. “The End”. Recordam-se deste filme policial? Exato.

Por muita criatividade de argumento e qualidade cinematográfica, a verdade é que se começou a cair numa espécie de “mais do mesmo”. As peliculas dos anos 80 e início dos 90, tipicamente, terminavam com finais felizes, exemplos disso são os filmes “Top Gun”, “Oficial e Cavalheiro”, “Pretty Woman”, “Dirty Dancing” ou o memorável “E.T. – O Extraterrestre”.

Os produtores não querem ver comprometidas as desejadas audiências e receitas derivadas. A procura pela novidade e atracão do público, tem levado os argumentistas e realizadores a revolucionar os finais dos filmes. Hoje em dia, promovem-se finais em que vilões são os heróis, em que a incógnita prevalece, dá oportunidade ao espetador de imaginar o seu final favorito e acima de tudo, abre espaço para a continuação da saga…

Talvez o ponto de viragem tenha sido “Titanic”, em 1997. É imperdoável que James Cameron não tenha arranjado um espaço para Jack, ao lado de Rose!? Num mar gelado, ela bem instalada naquela prancha de madeira, convenhamos que bastante espaçosa, podendo ceder um espaço para o seu amado. A verdade é que resultou bem, o filme tornou-se épico, provavelmente mais do que se ambos se tivessem chegado sãos e salvos a casa e terminasse com os frutos do seu casamento a brincar no playground da sua vida perfeita.

A academia dos Óscares também tem seguido uma certa tendência para premiar “desgraças”, senão como explicar que grandes sucessos do Steven Spielberg não lhe tivessem valido o Óscar de Melhor Realizador, como em 1982, com “E.T. – O Extraterrestre”, certo que perdeu para Gandhi! Só num filme como a “Lista de Schindler”, em 1993, num retrato duro do Holocausto, Spielberg conseguiu finalmente o merecido Óscar. Repetiu a façanha em 1999, com o prémio de melhor realizador com o filme “O Resgate do Soldado Ryan”. Um filme de guerra épico, que retrata a batalha da Normandia, dos momentos mais sangrentos da 2ª Guerra Mundial.

As pessoas gostam do inesperado e da colagem ao sofrimento e injustiças presentes no quotidiano. O sucesso de filmes como “Moulin Rouge” ou “Into the Wild” mostra uma tendência crescente de finais fatídicos!

Uma excelente exceção foi o “Silver Linings Playbook” (“Guia para um Final Feliz”), obra cinematográfica de 2013, uma história invulgar, onde Bradley Cooper e Jennifer Lawrence contracenaram num registo diferente. Um filme bem conseguido, que valeu um merecido Óscar, de atriz principal para a musa dos “Hunger Games”.

Afinal, o que torna tão sedutor enredos com pontas soltas, enigmas e finais trágicos? Muito embora o cinema seja entretenimento, as pessoas identificam-se mais com dramas, tragédias e finais conturbados, que se assemelham mais à vida real. Contos de fadas e finais felizes, na vida real, são altamente improváveis…

Temos de nos contentar, com desfechos parcialmente felizes, no meio de verdadeiras tragédias, como no exemplo da fita “Bird Box” de 2018, compreendendo que em filmes apocalípticos pouco se pode esperar de positivo, mas neste filme “Às Cegas”… o realizador conseguiu “vislumbrar” o melhor final possível!

Tags

Ricardo Manuel Santos

Mais que um profissional IT, sou um colecionador de experiências e viagens. Atento à relação entre o progresso tecnológico e inerente evolução social. Critico e opinativo por natureza, procuro sair da minha zona de conforto para evoluir, acredito que a única constante da vida é a mudança. De caligrafia torta e ideias rasuradas vou continuando a escrever o meu próprio destino! Visto-me de paixão e faço o hoje valer a pena, pois tudo é viver. Simples assim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Check Also

Close
Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: