Mundos solitários

Vi, há pouco tempo, um filme na Netflix, com o título “Mundos solitários”. Retrata a vida de uma escritora, pelo que me atraiu desde logo.

Katherine é uma bem sucedida e reconhecida autora americana que escreve há vários anos. A fim de conseguir terminar o seu último livro, inscreve-se num retiro idílico em Marrocos, pois em casa não consegue. As reuniões, festas, jantares e passeios com os outros escritores presentes no hotel não a seduzem. Ela apenas quer terminar o livro e para isso precisa de estar sossegada. Quanto menos gente melhor!

O ambiente e as pessoas que nos rodeiam nem sempre são favoráveis à concentração que um escritor precisa. Ela necessitou de um lugar isolado e longe de casa. Nem sempre as ideias fluem como nós queremos e, por vezes, alterarmos algumas coisas pode fazer a diferença.

Senti a situação na pele, pois eu escrevo em casa, na sala de estar ou no quarto, não tenho escritório, e por vezes tenho de partilhar o mesmo espaço com os meus filhos e com a televisão. Tenho obras no prédio há mais de três meses, sou interrompida regularmente pelo meu filho mais novo, que está muitas vezes comigo em casa à tarde, fora os barulhos da rua, dos vizinhos, máquina de lavar, etc..

Terminei o meu último livro na semana passada. Neste momento, estou em revisões. Demorei cerca de um ano e meio. É um assunto que além de concentração, requer pesquisa e uma linha de pensamento e raciocínio que quando quebrada pode ser difícil de retomar. As ideias nem sempre surgem no tempo certo e quando não são anotadas logo, normalmente, esvaem-se. Consigo, cada vez mais, desligar-me do exterior, mas estar sozinha e num ambiente silencioso, com boa luz, faz uma grande diferença e poupa-nos tempo e dores de cabeça.

Outra situação muito mais difícil, terrível mesmo, é perdermos tudo o que escrevemos. No filme, a Katherine é assaltada e levam-lhe a mala onde tinha o portátil. Não tinha uma cópia. Ela ficou devastada e nós, escritores, sentimos um arrepio na espinha só de imaginar.

Engraçado que a primeira vez que estive em Marrocos, estava a escrever o meu primeiro livro, o “777” e devido a um erro no PC, que não salvou e eu achava que sim, perdi umas três páginas. Fiquei irritada, frustrada, triste. Nem imagino o que seria perder tudo. Sei que aquilo que voltei a escrever já não era igual ao que se foi. Nunca volta a ser o mesmo.

No filme, isso fez com que ela se isolasse ainda mais. No entanto, ao fim de um ano escreveu outro livro. Talvez até melhor do que aquele que tinha.

Eu, apesar de ser mãe de três filhos, trabalhar fora, não ter muito tempo nem grandes condições para o fazer, sinto-me orgulhosa pois desde 2021, ano em que publiquei o meu primeiro livro, já editei mais dois e escrevi outros três. Dois deles, mais pequenos e ainda na gaveta. Imaginem quando tiver um local próprio, no meio da natureza, rodeada de árvores ou a ver o mar. Vai ser um de seis em seis meses!!

Nota: Artigo escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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