Não é para mim difícil gostar deste livro, como não é difícil admitir que pouco interesse terá para a maioria das pessoas.
Quando tomamos contacto com uma obra que celebra a nossa terra, ainda que ela seja factual e despida de grandes estados de alma, congratulamo-nos, sobretudo se a nossa terra não marca presença habitual nas primeiras páginas da actualidade do país.
Esta obra foi escrita entre 1911 e 1913 e conta a história da nossa terra desde o século XVI até “àquela” actualidade. O lugar de onde somos ganha, assim, toda uma outra cor. Se a isto juntar o facto de só lá ter vivido até aos cinco anos, entre 1981 e 1986, ainda que nunca tenha perdido o contacto, com visitas à família, e desde 2005, numa cadência de cinco a dez por ano, então é outra terra esta que acabo de ler, e que se sobrepõe às duas que eu conhecia: a da minha infância e a Marinha Grande que hoje vejo.
Só tenho a agradecer a Joaquim Barosa, operário vidreiro e autodidacta, pelo interesse em levar a cabo as suas Memórias da Marinha Grande, legado interessantíssimo que nos deixou; uma viagem no tempo. A história do nascimento da Marinha Grande e do seu crescimento como importante núcleo fabril estão aqui plasmadas, num trabalho bem documentado, tal como os lugares circundantes.
“Nestas fábricas empregam-se grande número de crianças no trabalho de aprendizagem em volta dos fornos, que muitas vezes a necessidade dos pais obriga a meter na fábrica na tenra idade de 8 e 9 anos; o calor a roubar-lhes a côr e as forças, tornando-os um operário de amanhã raquítico. Cansado, impossibilita-se, dos 45 aos 50 anos, especialmente na secção do fabrico de vidraça, em quase todos padecem doenças do estômago pela grande quantidade de água que bebem devido ao calor dos fornos.
Sem querer faltar ao dever que impõe, direi ser exemplo do que escrevo, aos 8 anos, bem novo… órfão de pai, triste futuro…circunstâncias especiais me obrigaram a procurar trabalho para viver com os escassos 450 réis por semana. Muitas vezes ouvi, o que ainda hoje se diz: – «Coitados, tão pequeninos neste trabalho; é tirar-lhes o crescimento, é faltar ao cumprimento da lei que regula o trabalho dos menores nas fábricas.»“

PS: Talvez todos tenhamos necessidade de cravar raízes no solo do passado; na Marinha encontrei esse terreno fértil onde a memória, tão virgem quanto ingénua ou depurada, encontra um lugar de repouso; o pousio antes das sucessivas plantações e colheitas da vida que vão saturando o terreno até ele se esquecer que, antes de produzir, existia pelo prazer de abraçar o calor do sol e beijar as bátegas que se lhe atiravam. Talvez a Marinha Grande que me chama não seja nada do que recordo, vejo ou sonho, mas algo de tudo isso há-de ser. Ler sobre ela num tempo em que eu não existia, mas sobre a herança da qual vivi e aprendi os primeiros passos da vida, dá-lhe, também a ela, à terra, uma nova vida ao meu olhar.
Comprei este livro por correspondência a um alfarrabista do Porto descoberto pela Sofia depois de eu lhe dizer que gostava de o ler. Foi a primeira extravagância literária que fiz, pagando por ele o mesmo que daria pel’A Montanha Mágica ou Anna Karenina (em novo!). Não chega às cem páginas, mas o valor que ele tem para mim não advém do tamanho, mas do ponto de vista privilegiado com que me deu a ver a primeira infância.
