Crónicas

Humanos

Todos os dias, à volta de deixar o meu filho na creche, seja de comboio, seja de carro, vejo-o sempre: um homem. Dos seus (talvez) 70 anos. Veste um colete amarelo, um boné coçado e um sorriso rasgado. Nunca falámos, mas cada vez que passo por ele na rua paralela à linha de comboio, sorri-me. Sempre. Eu ensonada e jovem. Ele enérgico e velho. Devolvo-lhe o sorriso e atravesso uma espécie de portal de boa disposição que me afeta até chegar a casa. O velho sorridente, com o seu colete amarelo, mesmo debaixo de chuva, garante que as crianças que chegam ao portão daquela escola são sempre recebidas com sol e calor. Não sei quem é, não sei como se chama, mas aquela (aparentemente) simples tarefa de dirigir o trânsito, de abrir o portão a cada pessoa que chega, de sorrir, faz já parte da minha rotina. Sabem, eu podia sair na segunda saída da rotunda, chegar mais rápido a casa, mas, desde o dia em que decidi sair na primeira saída, pela rua mais calma sem vista para o mar. Desde o dia em que entrou na minha vida, o meu mundo mudou. 

Ela terá uns 8 anos, ou ser daquelas crianças que são altas ou baixas para a idade e ser impossível adivinhar. Cabelo ao nível do queixo, dentes grandes e sempre de vestidinhos floridos, mesmo quando chove. Encontro-a muitas vezes quando desço ao jardim para uma voltinha rápida com as cadelas. Ela nunca me reconhece, mas sabe de cor os nomes de todos os cães da vizinhança. Dá um guinchinho e no seu inglês muito british chama pelos animais e abraça-os e dá-lhes festinhas e conta-lhes coisas do seu dia. Ri-se que nem uma perdida quando a minha Heidi lhe lambe o nariz e não tem medo do ladrar da minha Anita. E tal como aparece, desaparece repentinamente, pela esquina a galopar. Sempre sozinha, com estrelas no olhar. Aquele momento tão curto deixa para trás o jardim menos verde, as flores menos vistosas, as árvores mais tristes… ansiando o seu regressar. 

Ainda nem desci a rua e já a oiço, desde longe, a meter conversa com os vizinhos que passam pelas escadas do prédio. Vê-me chegar e acena-me energicamente e pergunta-me pelo menino e ai, que trabalheira este prédio que parece estar sempre em obras e que me dói o corpo que a menina nem sabe. Mas apesar das mil e umas maleitas atira os braços ao ar, abana as ancas energicamente e esfrega furiosamente o chão já imaculado. Conta-me que o Sr. Engenheiro-não-sei-quantos vai ser avô e que a Mariazinha que vive ali na Galiza deu um grande desgosto aos pais. A menina sabe quem é a Mariazinha, não sabe? Sabe, pois. Acrescenta que para os lados do Livramento já não há quem a contrate, é só estrangeiros nos casarões. Preferem a Molly Maid ou uma brasileira que lhes rouba do frigorífico que isto hoje em dia já não é como antigamente. Que as pessoas já não são honestas no seu trabalhinho. Eu sorrio e tento fitá-la, mas ela sabe que entre mim e a porta do rés-do-chão muita coisa pode ainda me contar. Fecho a porta de par em par e ainda a oiço dizer, ao menos os do rés-do-chão não fazem obras, benditos sejam! Descalço os sapatos e não consigo evitar uma gargalhada demasiado sonora.

O comboio vai sempre cheio àquela hora e é sempre àquela hora que a vejo. Com mil tranças no cabelo vermelho e olhos de mar. Veste cores terra e é tão serena como a maré baixa. Resigna-se dos comuns dos mortais e da multidão apertada que se queixa. Mas ela não, nunca se queixa. Nunca pega num telemóvel para se distrair. Apenas fita o olhar na janela e observa o passar das casas e das árvores. Parece viver no seu próprio mundo. À sua volta, os outros adolescentes parecem tão banais por comparação… Às vezes, consigo imaginá-la como rainha das fadas numa floresta secreta, ou deusa celta entre menires, com flores no cabelo. Porque, apesar de sempre calada, sempre sozinha, não é tristeza que emana, é paz.

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Catarina Loureiro

Autora. Artista. Cismadora. catarinaloureiro.wordpress.com

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