Crónicas

Entrevista com Jesus Cristo

Sempre atento à actualidade, o Repórter Sombra não perde uma boa notícia. A propósito da polémica do momento, envolvendo o grupo de comediantes Porta dos Fundos, devido a um especial de natal exibido na Netflix, onde parodiavam sobre um Jesus Cristo gay, vestimos a nossa roupa tigresse, juntámos as lantejoulas, fizemos a depilação e fomos falar com a única entidade que nunca se pronunciou sobre o assunto: o próprio Jesus Cristo.

REPÓRTER SOMBRA – Olá, Jesus Cristo. Como viu a polémica que o envolveu num recente vídeo de comédia brasileiro?

JESUS CRISTO – Olá. Não vi. Há semanas que estou trancado de castigo no quarto a brincar com os Nenucos.

REPÓRTER SOMBRA – Não tem visto as notícias?

JESUS CRISTO – Via, mas um dia a minha mãe apanhou-me no Tinder a ver homens musculados e cortou-me a Internet e a TV por cabo e pôs-me de castigo. De maneiras que tenho de me entreter de outras formas.

REPÓRTER SOMBRA – Sinto-o muito solitário. Conte-nos um pouco da sua vida actual. Há quanto tempo não vê o seu pai adoptivo?

JESUS CRISTO – Olhe, há 1987 anos, tinha eu 33 anos, quando nos vimos pela última vez. Eu ia pregado numa cruz, arrastado pela rua. Passei por ele e ele dá-me um raspanete em frente às pessoas: “Ó, Jesus, pá, quem é que lixou essa madeira? Isso está tudo mal tratado. Nem verniz deram na madeira, pá.”

RS – José estava mais preocupado com a aparência da madeira do que com o facto de você estar pregado numa cruz?

JC – Estava. O que é compreensível. Ele era um carpinteiro muito profissional e o facto de o filho estar ali pregado a uma madeira mal cuidada podia dar má imagem da empresa ou assim. O que é que as pessoas poderiam pensar, não é? Ainda ouvi uma boca ou duas: “Olha ali o filho do carpinteiro pregado numa madeira toda bichosa. Deve ser muito desleixado, aquele carpinteiro. Vamos mas é encomendar a cómoda a outro lado”. Foi bastante desagradável.

RS – Então e o que aconteceu depois disso?

JC – Não sei bem. Foi cada um para seu lado. Eu fui passar umas temporadas ao céu. Bem boas, por acaso. Aquilo é muito branquinho e tranquilo. É bom para descansar e

tal mas acho que faltam ofertas com pacotes de tudo incluído e visitas ao inferno para os turistas mais radicais.

RS – E neste tempo que passou, alguma vez tentou encontrar o seu pai adoptivo?

JC – Tentei variadíssimas vezes mas nunca foi possível. Uma dessas vezes fui ao local onde era a carpintaria mas só encontrei uma loja do IKEA. Enfim, até as ideias do meu pai copiaram. Ele não era só um grande carpinteiro, era também um visionário.

RS – Como assim, Jesus Cristo?

JC – O modelo de negócio do IKEA foi claramente inspirado naquilo que o meu pai fazia. Na altura, ele tinha um funcionário muito desastrado a trabalhar na carpintaria e muitas vezes deixava cair os móveis. O meu pai aproveitava e vendia tudo às peças. As pessoas compravam os móveis por causa da qualidade mas também por causa do convívio. As famílias reuniam-se em casa a tentar fazer puzzles com os bocados dos móveis. Eram noites bem passadas.

RS – Posso tratá-lo por JC?

JC – Claro, meu querido. Essa barba fica-te bem. Gosto de homens barbudos.

RS – Obrigado, JC. E projectos para o futuro?

JC – Estou neste momento a preparar o lançamento de um canal de streaming com conteúdos pornográficos para homossexuais. Vai chamar-se Meteflix.

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Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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