Gulliver

Há coisas que fazem com que algumas estórias e contos se tornem famosos. Excluindo as vicissitudes, que não são de todo irrelevantes no decurso do destino, ou a facilidade com que possam algumas pessoas editar o que escrevem, digamos que há algumas qualidades transversais às grandes narrativas. Como sempre, hoje é fundamental ler e conhecer, para melhor interpretar e pensar. Os clássicos são sempre algo que, situando-nos numa época e veiculando os seus princípios, promovem um certo relativismo com que devemos olhar o mundo, através do qual veremos a constância de algumas coisas e a transitoriedade de outras.

Para além da qualidade da escrita, a identificação do leitor com aquilo que se escreve acontece talvez devido a uma capacidade que o autor terá de traduzir a essência do mundo dos Homens, de fixar em palavras aquilo que não tem um lugar, ou um tempo. E se o tiver, esse lugar-tempo será aquele que ainda há-de vir. Gulliver é disso exemplo. Como poderão ler nesta análise exaustiva, o livro é um retrato/crítica à sociedade nos territórios britânicos, mas também das qualidades do Homem.

Ao saber das eleições de partidos socialistas em Espanha, de partidos xenófobos e pró-racistas em França e de uma confusão esquizofrénica na definição de alternativas em Portugal… veio-me à memória este livro de Swift. Que estranhas e diferentes terras iria Gulliver visitar, se se aventurasse neste continente, após adormecer numa embarcação que derivou até ao estuário do Tejo. Se o Gulliver de hoje fosse andando por esta Europa, certamente iria confrontar-se, ao passar nos vários territórios, com sociedades muito diferentes. Sociedades  que, embora tenham alguns princípios, referências e estados de desenvolvimento semelhantes, buscam essa diferença. Os nacionalismos poderão hoje continuar a desenvolver-se sob a forma de regionalismos que se contrapõem e coexistem com o globalismo, mas que são, apesar da inquietação, apenas mais uma fase da história já cheia de inquietações constantes e cíclicas. Estariam eles previstos no projecto europeu?Que maravilhas ainda irão surpreender o Gulliver?

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