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Feitos de fogo

No caminho até ao orfanato onde fazíamos voluntariado cabia tudo. Falávamos de passados e futuros tão diferentes da realidade na qual caminhávamos. Ao chegar ao portão vermelho, pedíamos licença para entrar noutras vidas.

Eram feitos de fogo. Tinham rebeldia nos gestos, pedras nas palavras, precipícios nos olhos. Sentavam-se trocistas, sem vontade de nada, esforçando-se por desprezar o mundo, mas, quando lhes perguntámos as histórias preferidas, surpreenderam-nos com o amor. Sempre o amor. Sobrepunha-se a todas as cicatrizes que eles tinham e que nós não conhecíamos. A ternura em bruto daqueles meninos de rua deixava-nos o peito cheio de primavera.

No orfanato, o passado era arame farpado. Na pele, não se distinguia o peso do abandono nem dos maus-tratos, mas cada um deles carregava o seu próprio labirinto. Não perguntámos e não nos contaram. Afinal, o coração era como o nosso, cheio de escombros, e os sonhos tinham o tamanho certo: gigantes, incríveis, inundados de promessas. Desejei com muita força que se realizassem.

Por vezes, surpreendiam-nos com olhos enormes de curiosidade. Queriam ver, fazer, aprender. Empurravam-se e lançavam gargalhadas pelo ar, eram acima de tudo crianças. Os mais tímidos seguiam-nos e falavam baixo, tinham a expressão gentil de quem procurava sermos solidão juntos. Outros tinham movimentos de tigre enjaulado.

“Tenham cuidado, alguns já fugiram várias vezes.”

A ânsia de liberdade de quem não conhecia a casa. A luta contra as regras de um mundo que os ignorava. Os invisíveis, os esquecidos. Meninos de rua, do mundo.

Foi no Peru, mas é em todo o lado.

Uma tarde, antes de nos irmos embora, um deles abraçou-me.

“São crianças com muitas carências”, comoveu-se a responsável pela ONG.

“São também adolescentes”, comentou a minha amiga, com um meio sorriso.

Eram feitos de fogo, aqueles meninos. De abismos e almas rasgadas, de meiguice e encantos inocentes. Crianças carentes e adolescentes rebeldes. Sim, eram isto tudo, mas quem de nós não é de retalhos?

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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