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Counter-Strike no Capitólio

Gamergate foi uma controvérsia online, mais uma batalha nas “guerras de cultura”, entre diferentes narrativas do mundo. Um grande grupo composto essencialmente por jovens homens brancos heterossexuais de classe média que se definiram como uma minoria perseguida por feministas e auto-intitularam-se de gamers, como se fosse uma identidade e não uma actividade recreativa.

No meio de tantas novas perspectivas que ganharam lugar nos media, um grupo de jovens e adultos criados no meio de filmes de acção de Hollywood e da cultura WASP (White Anglo-Saxon and Protestant) não quiseram abdicar da sua hegemonia cultural.

Além disso, da mesma forma que os Incels (Involuntariamente celibato) culpam as mulheres pela sua falta de sexo, estes homens culpam a sua perda de estatuto financeiro e social, não nas suas falhas pessoais, ou na exportação da produção para outros países, ou na exploração privada da saúde e da educação, mas no facto de mulheres se queixarem da sua representação em videojogos ou os filmes de Star Wars terem um protagonista negro.

São estes ressabiados que gostam de invocar “facts don´t care about your feelings” quando tudo o que os motiva é a frustração e o ódio. Estes criaram o espaço mediático para a Alt-right e para o Trumpismo e, mais tarde, para as conspirações de Q.

No meio de todos estes falhados, que culpam o mundo pelos seus erros sem qualquer auto-crítica, e que se definem pelo consumo de media em comum, naturalmente surgiu o seu rei por direito, Trump. Aquele que teve todos os privilégios possíveis de nascimento e mesmo assim conseguiu somar falências e vergonhas. Mesmo no seu fracasso, no meio dos media, conseguiu criar uma imagem de riqueza e sucesso, tornando-se acima de tudo uma estrela de TV, até finalmente ter sido eleito o presidente. O “failson”, que cavalgou a sua incompetência, ignorância, falta de vergonha e agressividade, sobre uma onda de pessoas que se identificaram com esses traços, e também alguns que queriam só eleger uma força destrutiva para o sistema. Nestes casos, volto sempre a um texto atribuído a Berthol Brecht  (1898-1956)

O Analfabeto Político

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, das rendas de casa, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, trauliteiro, corrupto e lacaio das grandes empresas nacionais e multinacionais?”

Porque o presidente dos falhados perdeu, novamente, a culpa não foi nem sua, nem dos seus seguidores, claramente todos “fartos de ganhar” como foi prometido. A culpa foi do voto postal, a culpa foi de imigrantes ilegais votarem, a culpa foi das máquinas Dominion que contam votos e vieram da Venezuela, a culpa foi da realidade, por não reconhecer a vitória de Trump.

Por isso, nas eleições presidenciais americanas de 2020 tivemos o contraponto cómico dos apoiantes do Trump a protestarem e rezarem à frente dos locais de voto, mas para parar a contagem em alguns locais e para inventarem votos para continuar a contagem noutros.

A invasão desnorteada do Capitólio foi feita com esses slogans, como “parem o roubo” ou “esta é a nossa casa”. Porque a casa do povo não é também de quem votou Biden, é deles. Aqui vemos que a crise das instituições não é realmente o problema.

As instituições estão corrompidas, pesadas, injustas. Como na verdade sempre foram. Mas as vozes reacionárias, como Trump, Republicanos ou Chega, não querem limpar ou substituir as instituições. Não, querem usar a sua legitimidade e o seu poder para si, em vez de as servir como funcionários públicos, como seria o ideal.

O pedido de sangue mais revelador foi pela cabeça do Mike Pence. Porque não ficou do lado do Grande Salvador contra todo o processo eleitoral. Porque não usou o seu poder e relevância institucional para um golpe de estado. Esses pretensos democratas, salvadores da pátria, esqueceram-se do seu amor pela polícia (quando essa se vira contra as minorias raciais) e realizaram acções que noutros casos usariam como legitimadoras de força letal pelas “forças da Lei”. Trump abandonou os seus apoiantes, quando o fracasso estava patente. O rei dos falhados abandonou os falhados quando falharam, e o FBI já acusou mais de 400 pessoas de crimes federais.

Até a tartaruga humana Mitch McConnell, líder da então maioria republicana, falou como o Senado não iria se curvar à vontade de uma “insurreição fracassada”. Serviu a tentativa para motivar um segundo impeachment de Trump. Mais uma medalha de fracasso, o único presidente a sofrer essa deslegitimação instituicional duas vezes.

Foi também esse último grande esforço violento, para adaptar a realidade a uma narrativa que levou as redes sociais a banir Trump e certas teorias de conspiração. Houve alguma esperança de que Trump fundasse um novo partido, que iria partir a base republicana em duas. Mas isso era muito trabalho, era um empreendimento muito grande.

Mas esta semana Trump anunciou algo que faz sentido: uma nova rede social. Porque, fiel à sua incompetência, essa suposta “rede social” não passa de um separador estilo blog no seu site. Onde um falso presidente pode continuar a criar fake news numa falsa rede social para todos os seus seguidores, que no fundo não querem qualquer verdade, só a sua fantasia.

 

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Telmo Alcobia

Telmo Alcobia nasceu em Lisboa, 1980. É licenciado em Pintura ( FBAUL 1999-2004) e Mestre em Desenho ( FBAUL, 2006-2009), além de várias formações complementares. Expõe em colectivo e individualmente desde 2001. Além da pintura contemporânea e arte mural, e ilustração, já escreveu artigos, para a revista Umbigo e outros. Actualmente faz parte do Grupo POGO, e trabalha com a Galeria António Prates e o Centro Português de Serigrafia.

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