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Gaze de retalhos

Memórias de infância aos farrapos

Na minha família não há médicos, que eu saiba.

Há hipocondríacos, no singular, porque acho que devo ser a única, e doutores à portuguesa, que são os licenciados. Mas médicos-médicos, não me consta que haja ou que tivesse havido. Posto isto, no meio das mascaradas de roupas que a nossa avó nos deixava fazer havia variados acessórios e entre eles causava especial fascínio em mim uma maleta em pele castanha daquelas que abrem ao meio.

E como é que uma pirralha sabia que aquela era uma mala de médico? À época passava na televisão uma série que, ainda que não compreendesse todo o enredo, captava a minha atenção pela “Fotografia” (agora sei que se diz assim mas o que gostava era das cores da paisagem rural, do brilho das manhãs, do escuro das noites frias daquela aldeia remota).

Com tema de abertura escrito por Ary dos Santos, musicado por Tozé Brito e cantado por Carlos do Carmo, “Retalhos da vida um médico” fazia-me colar ao televisor. Foi lançada em 1963 mas eu vi-a já bem depois de ’85. A série baseava-se nas crónicas escritas por Fernando Namora sobre aquilo que viveu na primeira pessoa enquanto médico de província.

Confesso que muita da narrativa me passava ao lado mas acho que foi a primeira vez que percebi o que era ser médico. Até então acreditava que eram seres inatingíveis, autómatos e esterilizados. Recorríamos a eles com uma lista de queixas e dúvidas e eles, por sua vez, debitavam diagnósticos, prognósticos, medicações, dosagens e posologias à medida da maleita. Com esta série, vi um médico batalhar contra as adversidades do meio rural, contra a desconfiança de um povo ainda tão preso às mezinhas e avesso à medicina moderna. As relações que teve que tricotar para ganhar o respeito da comunidade, as lutas interiores de quem sente que é fácil desistir e virar costas. Admito que possa ter havido espaço para relações amorosas. O português não é santinho e o cinema nacional explora bem o nosso lado maroto. Mas a memória não cravou nada nesta cabeça, lamento, porque tenho a certeza que havia ali espaço e tempo para muita marotice.

Pergunto-me muitas vezes se ainda espelha a realidade de um profissional de saúde que escolha outro campo de batalha que não o urbano. Ainda há ruralidade em Portugal, haverá ainda desconfiança? A única certeza que tenho é que a simbólica maleta já não diz nada às gerações mais novas e é pena.

Dos “Retalhos da vida de um médico” retive acima de tudo a música, as cores e aquela maleta. Fiquei extasiada quando encontrei uma réplica incrível no quartinho onde a avó Madalena guardava os vestidos que nos deixava usar nas brincadeiras (sabe Deus como sobreviveram às asneiradas, que eu e a mana caçula éramos moças para trepar a nogueiras vestidas com folhos e laçarotes!). Independentemente do argumento das nossas histórias, aquela maleta fazia s-e-m-p-r-e parte da narrativa. Perdi-a no fumo dos dias…nunca a coloquei em perigo mas não sei se escapou incólume.

Com isto tudo acho que abri a caixa de Pandora: quero rever a série mas agora para procurar as cenas picantes…as moças trigueiras de certeza que iam querer saber quão esterilizado seria o sô Doutor…

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Mónica Santos

Em miúda gostava de inventar, agora escrevo; colava as vistinhas nos intervalos para devorar publicidade, agora sou copywriter; lia em voz alta na escola, agora faço locuções, destaquei-me na praxe quando pediram que dissertasse sobre "Pistões e panelas de pressão" e com isso ganhei rodadas; um dos empregos que tive, consegui-o com um texto sobre flatulência, e era autobiográfico...sou locutora, narradora, produtora de rádio e pagam-me para escrever. Gosto muito de ser mercenária e dos desafios que me arremessam. Lutei contra o Acordo Ortográfico mas agora damo-nos muito bem. Quis experimentar a liberdade de brincar com a escrita e encontrei no Repórter Sombra o perfeito parque de diversões: aberto todo o ano e sem torniquete à entrada....ah, e tenho os bolsos cheios de fichas!

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