É um daqueles filmes que resultam, numa primeira impressão, porque a sorte assim o ditou, mas à medida que vamos descascando as camadas que o compõem, mergulhamos numa riqueza em que os ingredientes facilmente se isolam. E contudo, não é pela história, pela época ou pelos actores, pelo mistério ou pela (belíssima) fotografia, pela estado de graça em que o realizador então vivia ou pela evocação da doçura da infância… é pela arte de juntar todos estes tesouros e ainda assim conseguirmos transportar a arca às costas com leveza, é por misturar toda esta paleta policromática e o resultado não ser branco nem negro mas um arco-íris, ora vivo ora suave, consoante o olhar do espectador.
É curioso como – e esta afirmação é altamente discutível – as melhores adaptações ao cinema dos romances de Stephen King são precisamente as obras que mais se afastam do género que o catapultou, o Terror/Fantástico. O exemplo mais óbvio é Os Condenados de Shawshank embora À Espera de Um Milagre também caia nesta circunstância. Do outro lado da barricada poderão apregoar que Shining ou Carrie são tão bons dentro do género e que a sentença acima não tem razão de ser. Talvez; talvez eu esteja enviesado pelo facto de ser outro o terror que me fala e não este que King explora, contudo, o filme que segura este artigo insere-se na primeira categoria, a de não terror: Conta Comigo foi realizado em 1986 por Rob Reiner, o “Meat Head” de Uma Família às Direitas (entretanto tornado realizador), que teve na segunda metade da década de 80 e primeiros anos da década seguinte o seu período mais empolgante (são dessa época The Princess Bride, Um Amor Inevitável, Misery – O Capítulo Final, Uma Questão de Honra ou Uma Noite com o Presidente).
Conta Comigo é um filme sobre a infância e o crescimento passado na ruralidade da América profunda durante a década de 50. Um grupo de crianças (hoje chamados de pré-adolescentes) partem ao longo de uma linha de caminho-de-ferro em busca de um corpo de que ouviram falar. Talvez o epíteto não seja apelativo, mas a vontade de não revelar demais e a certeza de que uma boa obra é muito mais sobre o que não é contável do que sobre a história que qualquer um apreende, leva-me a ficar por aqui.
Como tantas outras vezes, tive sorte. A sorte de me ter cruzado com este filme nessa fronteira entre a meninice e a idade do armário, vivendo assim a descoberta daqueles quatro rapazes como se estivesse no grupo. Como Ron Howard, Oliver Stone, Hitchcock ou tantos outros que poderia nomear, seria um ângulo de análise dissertar sobre os factores que levam um realizador (mas não só: um artista em geral) a ser prolífico (em quantidade e qualidade) numa fase da sua carreira, sem conseguir sustentar a partir de certa altura essa veia inspiradora. Poderia apontar para a chama que se extingue, a dificuldade (ou recusa) em perceber e acompanhar os tempos, o aprofundamento da intelectualidade que os afasta do mundo dos mortais, os traumas ou questões pessoais, as invejas e injustiças do meio que lhes corta o financiamento, etc… mas teria que me debruçar sobre cada ponto e perceber onde é que Reiner se perdeu… ou se libertou (outra questão interessante).
Sendo fã dessa fase deste magnífico realizador, capaz de captar as subtilezas, tanto da natureza humana como do seu país, talvez Conta Comigo fosse, entre os seus filmes, aquele que levaria para uma ilha deserta ou um planeta distante (ou a casa do Big Brother, vá)… nem que seja pelo título: Stand By Me.