Confiança

Mais um ano que se usou na totalidade e um outro que se aproxima. É costume fazer o balanço do que aconteceu e expressar os desejos para o vindouro. Os planos são sempre grávidos de boa vontade mesmo sabendo que se vai gastando com o passar dos dias. Por regra, pretende-se corrigir os erros cometidos, mas a essência humana tende a que os mesmos sejam logo esquecidos e novos e ainda mais brilhantes surjam no panorama de cada um para serem cometidos.

Há sempre um mote, um guia para se ser feliz todo o ano. Cada um escolhe o seu caminho, a forma como o vai orientar e viver. Não quer isto dizer que consiga que os seus objectivos sejam cumpridos, mas, sabendo que existe um certo guião, as coisas ficam sempre mais leves. É uma espécie de rede de segurança que ampara os que avançam sem medos.

Confiança foi a palavra que escolhi para os tempos que se aproximam. Não foi feita de ânimo leve, mas é essencial para que se prossiga sem receios nem medos de maior intensidade. É o elo que consolida todas as relações significativas e sólidas que se querem duradouras. Penetra numa dimensão psicológica vital que nutre a complexidade da ligação e a fomenta.

O homem pré-histórico começou a falar, quando entendeu o conceito de confiança. Nas caçadas de animais de grande porte, o grupo de homens era em número elevado e, por isso, ocupavam pontos estratégicos no terreno. Uns ficavam nas laterais, outros na dianteira e outros é que avançavam para o bicho. Quando se sentiam protegidos a caçada era sempre de grande valor pois teriam comida para mais tempo.

Sabendo que havia quem os defendesse dos perigos que pudessem surgir sem aviso, levantaram a cabeça e esticaram o pescoço. Deste modo as cordas vocais ficaram em posição de serem usadas e assim se iniciou a articulação da fala. Os primeiros sons ainda eram guturais, mas com o uso suavizaram-se e criou-se uma linguagem inteligível.

Confiança é o que sentimos, quando nascemos. Quem nos coloca no mundo, mesmo que não o saiba, está a incutir este sentimento. É como segredasse: confia que és bem-vindo e vais ser muito feliz. Quem nos cuida mostra que é a confiança que estabelece os laços primordiais e com ela somos mais fortes e determinados. A personalidade é tanto mais forte, quando o seu entendimento.

Na escola, confia-se que os professores estão a passar as mensagens correctas, nos aspectos profissionais, acredita-se que os elementos da equipa trabalham em prol de todos e que o resultado vai ser o melhor. Confia-se que se rema para o mesmo lado da margem e se chega a bom porto.

Quando se recorre a serviço de terceiros, sabe-se que se pode confiar neles, como por exemplo, o serviço de mudança de casa, do táxi que se tornou urgente, da pessoa que cozinha num restaurante, em quem cuida dos nossos filhos, os nossos mais preciosos bens, devolvendo-os ainda mais ricos com os ensinamentos emocionais do dia.

Uma viajem de avião inclui confiança pois o piloto leva nas suas mãos muitas vidas e é o responsável por todas deixando a sua para o fim. Um comboio, um autocarro ou outro transporte grande permite que várias pessoas cheguem aos seus destinos na maior das seguranças. Um prédio é feito para albergar gentes díspares, mas todas sabem que quem o construiu sabia que havia confiança nos que o iriam habitar.

Sobretudo, é a confiança que se estabelece entre um paciente e o seu médico que permite que as cirurgias e os tratamentos sejam mais eficazes. São estas as peças mais sensíveis do tabuleiro da vida de cada um. E que dizer do parceiro que se escolhe? Confiança para uma vida que se almeja longa e com leves traços de perfeição. Confiança de que existe sempre um amanhã e que será ainda melhor do que o hoje.

Confiança, palavra que se pode transformar em guia, em mantra ao ser pronunciada vezes sem conta. É o início para se acreditar que se é capaz, que se ultrapassam aquelas barreiras e que os limites podem ser cruzados. Com confiança, o peito enche-se de amor próprio e autoestima que permite que seja possível tudo continuar.

É essa mesma confiança que vai abrir a porta do próximo ano e vai mostrar que os medos e os receios são apenas conceitos e não realidades. Vai ensinar que os tais esqueletos, que se arrumam no fundo do armário, vão sair de vez para não mais retornar nem atormentar os sonos de quem exige o merecido descanso.

Confia em ti, que vais ser muito mais do que pensavas que serias, vais conseguir atingir os píncaros e lá, onde o ar é mais puro e aromático, abres os braços, rodas num baile imaginário, fechas os olhos, sentes tudo o que existe e é pensado e sabes, como toda a certeza, que vais ser imensamente feliz!

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