A ponte

Parecemos estar repartidos em partes distintas e distantes, em que o corpo, a mente e o coração se afiguram como entidades diferentes, naquilo que na verdade converge em unicidade.

Quando temos comichão, coçamo-nos; quando ficamos em bicos de pés e erguermos os braços para chegar a uma prateleira alta, de lá trazemos o que queremos; quando nos apetece caminhar, basta pormo-nos em marcha; quando pegamos num grão, num movimento fino, colocamo-lo no sítio certo; quando afastamos os dedos dos pés e das mãos tantas vezes quantas quisermos, achamos engraçado vê-los todos separadinhos… O que é tudo isto, senão a bem-aventurança!?

Todavia, de todos os nossos movimentos, apenas uma ínfima de uma ínfima parte é realizada em consciência, com gentileza e gratidão. Se fizermos um corte na ponta de um dedo, por mais pequeno que seja, é aí que percebemos que esse dedo é importante no nosso corpo. E reclamamos daquele latejar que, num sítio tão pequeno e aparentemente insignificante, nos causa uma dor incisiva, já para não falar da falta de precisão para executar tarefas que envolvem as mãos e que no dia-a-dia são tão automáticas. E quando batemos com o pé num móvel? Pois é, o nosso corpo, que se move incalculavelmente, muitas vezes cai no esquecimento…

São mais as coisas que fazemos do que o tempo que temos para as fazer. E ao fim do dia, cansados, parece que nada fizemos… O foco para a grandeza dos pequenos movimentos, para os pequenos gestos, para a extensão da nossa linguagem verbal, sai embaciado em detrimento dos afazeres que parecem que vão salvar o mundo…

À medida que tomamos consciência da grandeza de toda esta interligação entre os sistemas do nosso corpo, quer sejam grandes ou pequenos; à medida que harmonizamos mente, coração e corpo, sentimos cada vez mais de verdade e encontramos beleza no nosso lugar de dentro, a ponte que liga os três inseparáveis: corpo, coração e mente. A ponte da consciência. E com gentileza, gratidão e leveza tornamo-nos mais atentos à nossa inteireza, ao todo unido pelas nossas partes.

E é neste lugar de dentro que a casa vai sendo arrumada, onde moram a consciência, a aceitação, a alegria, a serenidade, a compaixão e a liberdade. Mas também onde se hospedam o medo, a insegurança, a raiva, a frustração, a negação e a tristeza, que desarrumam tudo, porque afinal somos humanos… Porém, se conjugarmos tudo com o verbo amar, não tenho dúvidas de que, não obstante os obstáculos que a vida nos coloca pela frente e o caos do mundo, a paz será sempre o altar onde o nosso coração pulsará de bem com a vida.

Este é um trabalho de equilibrismo. Um jogo entre luz e sombra. Se tivermos esta consciência, creio que o jogo da vida se torna mais desafiante e interessante. Uma ponte alicerçada por uma estrutura sólida: o nosso lugar de dentro.

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