O Caos e o Homem
“O homem que não é capaz de desenvolver e usar sua mente está fadado a ser escravo do outro homem que usa sua mente.”
– Marcus Garvey
O Caos nem sempre foi a ordem dominante no Homem, nos primórdios dos tempos, o Homem era regido pelo instinto, longe ainda de poder usufruir da subjectividade da mente, o Homem ancestral constituía-se parte integrante do reino animal, objectivo e focado. O sentido da vida do Homem ancestral era, tal como o é actualmente, o mesmo sentido que encontramos nos animais, dito irracionais (se é que existe semelhante estrato), a luta pela sobrevivência do Ser.
Evolução e progresso são duas semânticas distintas, o reino animal evoluí, porquanto o reino do homem progride. A evolução consiste na actualização da programação (EU) e no aperfeiçoamento da estrutura (Ser), porquanto o progresso é a alteração do programa (Eu) e a flutuação da estrutura (Ser). Isto é determinantemente importante para se aferir em que força dominante nos situamos, ou os animais, depende da qual se quer reflectir.
A auto-imposição que o Homem se propôs, ser de facto a Ordem e não o Caos, através da progressão da espécie, não pertence ao domínio do Ser, mas sim do Eu. De forma mais notória e mais vincada, essa progressão (e tendo em consideração, pessoal, que progresso não significa necessariamente, virtude ou ganho) é visível com o nascimento da religião, ou religiões. A questão da espiritualidade (fé ou crença) é tão antiga quanto o Homem o é, e até ao nascimento da religião, como dogma humano, os primeiros esquissos de sociedade, as comunidades tribais, viviam a espiritualidade (o pensamento abstracto) de acordo com a ordem natural das coisas. A fé ou a crença era expressa por símbolos (totens), que representavam a sagrada natureza. Ainda que seja hoje motivo de discussão, defendo que o totemismo se dedicava ao culto do Ser, do sagrado feminino (a Mãe Natureza), porque ela representa a Vida e a reprodução do Ser, acima do mero Eu.
A religião (ou religiões para não excluir partes), como producto de consumo humano, é um dogma, pois a mesma (ou mesmas) consideram-se a Luz única e verdadeira, indiscutível e una.
O cristianismo, como religião é um dogma, pois a mesma pauta que providencia a virtude, apregoa o castigo, os valores éticos e morais nela contidos, são negados, contudo, a quem desse dogma não comunga. A religião da Luz, detém o poder de conduzir pelas trevas por si criadas (entre o céu e o inferno) os seus seguidores. Na imensa escuridão, os crentes só são autorizados a ver o que a Luz lhe interessa mostrar. Este facto não é específico nem da Ordem nem do Caos, nem cria ou proporciona nenhum estado de consciência, mas sim uma criação especifica dos detentores do poder, a anarquia do Eu.
A anarquia é uma negação (violenta ou pacifica) da contraparte, que em termos tangíveis se constituí no sistema que vive em negação da autoridade, ou vice-versa e nos termos intangíveis o Eu que vive em negação do Ser, mas não em vice-versa, o Ser (ordem natural das coisas) prevalece sob o Eu (o individuo).
O Poder da Luz
É nada mais, nada menos, que o poder de conduzir o Eu, ofuscando o Ser.
O Eu é religioso, cumpridor e devoto de uma doutrina ou ideologia, porquanto o Ser é simplesmente humano, a espécie humana é natureza, e os seus limites são os limites da natureza, a circunferência do símbolo taoísta, ao Ser é-lhe permitido por natureza, cruzar os dois hemisférios existentes, ao Eu, que vive hoje em exclusivo no Caos, conhece exclusivamente a anarquia, que curiosamente o mesmo símbolo a representa, nos olhos da serpente (um pequeno ponto negro na Ordem, e por sua vez, um pequeno ponto branco no Caos, ambos simétricos).
A anarquia no Caos é diametralmente oposta à existente na Ordem, porquanto é o poder da Luz que nos mostra a sua vontade, a sua pauta, a sua ideologia, não se constituindo deste modo uma escolha consciente, mas sim uma imposição, do outro lado, a anarquia dentro da Ordem, é uma escolha consciente, porque no breu mais escuro do Caos, só vemos o que a Luz nos indicar, e na parte oposta, identificamos conscientemente o que nos rodeia e o desconhecido também, ou a escuridão a que a Luz não nos conduz.
No Caos em que o Homem se encerra, nenhuma consciência desenvolve, é-lhe induzida pela Luz que o mesmo se entrega sem consciência do acto.
Nenhuma Luz traz sabedoria, pois a mesma encerra em si mesmo, um princípio e um fim, sem calcorrear o breu, a sabedoria da Luz é imutável, indiscutível e una.
Tomemos o exemplo de Galileu, julgado por heresia pela tal Luz que se afirmava detentora de toda a sabedoria existente, no entanto, e embrenhada em polémica, Galileu deixa-nos a herança de que Eppur si mouve.
A tal Ordem, que emana a Luz da sapiência, da ética e da moralidade indestrutíveis, que condenou Galileu a uma morte quase certa, a tal verdade una e indiscutível, afinal estava errada, todas as mulheres (especialmente) e homens condenados pela Santa Inquisição a mortes grotescas e desumanas, foram pela simples vontade de outros semelhantes, ditos pios e misericordiosos, queimadas e queimados na fogueira das vaidades do progresso humano.
Tudo porque o Eu se destinou a partir de certa altura, não a contemplar a Vida, mas sim na destruição do Ser. Tudo o que a Idade das Trevas nos demonstra, é a destruição do sentido da vida do Eu, a sua liberdade. A natureza com a sua ordem natural das coisas, estabelece as suas regras intransponíveis, a Vida e a Morte como limites físicos e espirituais de todas as coisas, o Ser é todas as coisas da Lei da Natureza, não da lei Divina.
O Eu, limitado pela circunferência da Lei da Natureza, possuí in natura a liberdade de calcorrear todo o espaço disponível pelo tempo que a natureza lhe concede, compete ao Eu, escolher pela subjectividade o uso desse mesmo tempo e espaço que lhe é oferecido.
O Eu que escolher ser guiado por uma Luz que lhe é imposta, nem usa o espaço, nem é soberano do seu tempo, é deste modo, um mero crente, seguidor e fiel dos desígnios temporais e usufrutuário há condição do espaço, que outro Eu lhe concede. Um Eu deste modo é um Eu vazio, inócuo e incapaz.
No entanto, a expressão correcta em tempos pronunciada pelo também polímata Galileu Galilei, parece que foi “Eppur si muove” e não, Eppur si mouve, como refere o autor do artigo.
Já concluía Charles Darwin que: Indivíduos menos adequados ao ambiente têm menos probabilidade de sobreviver e de se reproduzir; indivíduos mais adequados ao ambiente têm mais probabilidade de sobreviver e mais probabilidade de se reproduzir e deixar seus traços herdáveis para as gerações futuras, o que produz o processo de seleção natural (fato).
Curiosamente alguns gatos resistem à caixa de areia, contrariando o seu instinto natural ( e não para chatear os donos), apenas por desconfiarem da “integridade” da mesma. É um ser vivo irracional que no entanto parece ser dotado de uma racionalidade de origem misteriosa.
Vamos fazer amigos entre os animais, que amigos destes não são demais na vida….