Crónicas

A Dor para calar a Dor

Tinha oito anos. Desde então, passaram mais de vinte, mas lembro-me exatamente das circunstâncias, do que ele tinha vestido, das coisas que me disse. E lembro-me, principalmente, do medo. Do que viria depois daquilo. No que ele seria capaz de se transformar. No entanto, nada me preparou para o que aconteceu.

Quem me conhece de perto sabe que algo de grave aconteceu, mas nunca me atrevi a aprofundar a questão. Nunca dei pormenores. Nem tinha de o fazer. Quem me conhece sabe que ainda me dói, que ainda me atormenta, ao mesmo que tempo que eu finjo não ter importância, ao mesmo tempo que eu ignoro os sinais da avalanche emocional que se abateu sobre mim desde essa altura.

Um dia, aproveitei um momento de ausência dele para contar à minha mãe o que tinha vindo a acontecer várias vezes. Se os olhos dela pudessem falar, penso que teria sido aniquilada naquela hora. Só queria que um buraco no chão se abrisse para mim e não mais pudesse sair de lá. Senti-a completamente desconcertada, perdida, como se o que eu lhe estava a dizer a matasse em câmara lenta no seu coração de mãe.

“Se demoraste tanto tempo a falar, foi porque gostaste!” O quê? Como assim?

Não houve um abraço, não houve um “como é que estás”, não houve nada e nada foi o que me senti. A minha vida desabou abruptamente nesse dia. Arrependi-me amargamente de ter falado. Se fosse hoje, seguramente não o teria feito.

O assunto passou a ser tabu. Não se falava, não havia interesse em perceber que danos poderia ter causado, não só a mim, mas a toda a família. As poucas e raras vezes que a ele se referiram era como “aquilo”. Tinha de se esconder. Ninguém podia saber. A criança com oito anos estava descompensada e inventara uma história rebuscada para atingir alguém. Foi assim que me senti durante muitos anos. Cheguei a pensar estar maluca. Que tinha sonhado com aquilo. Que falta de amor era aquela que me levava a desculpar os outros e sentir a culpa nos meus ombros?

Contar o que se tinha passado trouxe até a mim a violência. Passei a ser o motivo pelo qual alguém, por A mais B, descarregava a sua ira, a sua fúria sem dó nem piedade. Enquanto a minha “protetora” fazia vista grossa ao que estava a acontecer. Sabia exatamente porque me batiam, porque me abriram a cara em sangue e nunca, mas nunca foi capaz de tomar uma posição de amor. Nesses momentos, havia sempre o que fazer na rua ou a porta do quarto para fechar. Nunca percebi se era para não ver ou se para o deixar mais confortável na sua tarefa de me violentar física e psicologicamente.

Ouvi demasiadas vezes “estragaste a minha vida” ou “o meu casamento acabou por tua causa”. Era a minha mãe quem me dizia estas coisas. A mesma que nunca me abraçou, a mesma que escolheu não acreditar em mim por causa de um homem, que nem sequer era o meu pai. A mesma que escolheu passar toda a sua responsabilidade parental para os psicólogos e psiquiatras de serviço. A mesma que se alienou do que eu sentia, que descartou os meus sentimentos mais profundos e dolorosos por meia dúzia de tostões. Na verdade, era disso que se tratava. De manter a casa. E eu vim pôr isso em causa no dia em que abri a boca.

Não concebo que um pai ou uma mãe reduzam o seu filho a essa pequenez, a esse desprezo tamanho. Não concebo que uma mãe não tenha um abraço para os seus filhos e não concebo que, por muito que a vida tenha sido difícil, uma mãe se encarregue de colocar os seus filhos à mercê de predadores. Não concebo que uma mãe faça dos seus filhos mártires para calar as próprias dores.

Hoje sou mãe. Mãe de verdade e de verdades. Mãe de abraços e de beijos. Mãe de sangue e de coração. E sei que nunca sujeitaria o que de mais valioso a vida me concedeu a tamanhas barbaridades. Hoje sou mãe e, longe de ser perfeita, sei que tipo de mãe não quero ser.

Com a minha mãe, ainda não alcancei o perdão. Não porque não tenha tentado, mas porque me fica extremamente difícil perdoar alguém que nem tem noção do mal que me fez ou dos danos que isso me causou. Aprendi a aceitar. Aprendi a conviver com a saudade de não a ter por perto, porque a presença dói-me em dobro. Como é que se perdoa algo que não tem perdão?

Helena Barbosa

Nascida em Braga,na metade da década de 80, no pico do calor. Encontrou na escrita, uma paixão para a vida...encontrou a terapia que lhe faltava! Tem um amor imenso por chocolate e uma obsessão pela cor amarela... que ninguém entende de onde vem! Apaixonada por flamenco e romances de fazer "chorar as pedras" da calçada. Quem a conhece bem sabe que ela é o riso e a gargalhada. Mãe de uma pérola pré-adolescente... que é só e apenas... a personificação do amor!

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