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Steven Spielberg – O Fabricante de Sonhos

– Viste aquela parte em que ele abre a cobra e saem de lá de dentro montes de cobrinhas e depois eles comem?!

Ya, bué louco! E quando eles comeram miolos de macaco gelados à sobremesa?!

Eh, pois foi! Tu viste António?

Spielberg com Harrison Ford nas filmagens de ‘Indiana Jones e o Templo Perdido’

Eu não tinha visto. Estávamos no campo de futebol forrado de gravilha do externato e sei que era uma quinta-feira porque eu não havia visto Indiana Jones e o Templo Perdido que tinha passado na noite anterior na rúbrica Lotação Esgotada, do primeiro canal da RTP (só havia dois), que acontecia às quartas-feiras à noite. Estávamos algures entre 1987 e 1991 pois recordo-me que conversa ocorreu quando eu estava na primária. Se o filme tivesse sido transmitido na Sessão da Noite, às sextas, tê-lo-ia visto… ou talvez não pois o banquete mencionado no diálogo e a “remoção” do coração a sangue-frio que se seguiria granjeavam ao filme um “zerinho” branco no canto superior direito no ecrã do televisor de cinescópio. A rotina passava por jantarmos – eu, os meus pais e a(s) minha(s) irmã(s) – durante o Telejornal, vermos juntos a telenovela e a seguir irmos (os três; não os cinco) para a cama; só às sextas e sábados era aligeirada a hora do “recolher obrigatório”.

A magia e a ternura de ‘ET – O Extraterrestre’

Julgo ter sido este o primeiro contacto que tive com um filme de Steven Spielberg e tenho ideia de não ter demorado muito a ver as duas primeiras obras da saga. Amei todo o imaginário de aventuras, arcas perdidas de onde saiam mandamentos e coisas sagradas, lugares exóticos, descobertas antigas e muita acção e divertimento. As fitas das cassetes onde os filmes foram gravados estavam comidas pelo uso sem que isso me demovesse de os ver repetidas vezes. Pouco depois, numa das sessões de cinema em família aos sábados à tarde, os meus pais alugaram o ET – O Extraterrestre. Eles não gostaram e eu voltei a amar: a partitura de John Williams, as bicicletas a voar, o dedo aceso ou a bola lançada do anexo da casa da família de Elliot enquanto tentávamos adivinhar quem a havia devolvido… como é possível não gostar de ET?

‘Devil’s Tower’, o lugar onde tudo acontece em ‘Encontros Imediatos do Terceiro Grau’

Eram os anos oitenta e Spielberg confirmava o estatuto alcançado na década anterior. Estes três filmes, entre 1981 e 1984 sagraram-se mega-sucessos de bilheteira (cada um foi o filme mais visto nas salas de cinema do respectivo ano) aos quais aliavam a marca da qualidade. Obras como estas ajudaram a cimentar a minha paixão pelo cinema (quando apareceram os DVDs eu tinha mais de quinhentos filmes gravados em VHS) e recordo-me de, pouco depois de ver Indiana Jones e a Grande Cruzada – o meu filme favorito da série – ter recuado à década de setenta onde o Tubarão não me cativou mas Encontros Imediatos do Terceiro Grau me fascinou desde o primeiro momento e ainda hoje me surpreende. A Devil’s Tower, no Wyoming, tornou-se no Santo Graal da Grande Cruzada, o sentido que procuramos ainda que não o saibamos precisar, e a sensação de ver algo em cinema que deixava espaço aberto para o sonho na mente do espectador foi uma deliciosa e fascinante novidade na altura dos dez ou doze anos.

A maioria dos filmes de Spielberg dispensa grandes descrições pois são sobejamente conhecidos, no entanto, o filme que o colocou no mapa foi uma obra feita para televisão em 1971, Duel (Um Assassino pelas Costas em Portugal), configurando um magistral exercício de suspense onde um Peterbilt 281 persegue um homem ao longo dos Estados Unidos e de todo o filme. O camião converteu-se – para mim – num dos maiores vilões do cinema (não obstante ser um telefilme, o sucesso foi tal que, posteriormente, acabou por migrar para as salas de projecção) neste road movie onde a vertigem do momento se sobrepõe às causas ou ao desfecho do enredo.

O enigmático Perterbilt-281 em ‘Um Assassino pelas Costas’

Apesar de Spielberg ter nascido no seio de uma família judaica em 1946, a “fase adulta” da sua cinematografia custou a arrancar: em 1984 encontrava-se demasiado associado ao cinema de Aventura/Suspense/Ficção Científica, géneros por vezes (e erradamente) considerados menores e cuja ideia o próprio ajudou a desmistificar. A Cor Purpura, apesar das boas intenções, falhou nas onze nomeações que alcançou (!) e Império do Sol, a história de um rapaz que, separado dos pais durante a invasão nipónica a Shangai durante a II Guerra Mundial, se vê empurrado para um campo de concentração onde a ingenuidade acaba por se converter acidentalmente em instinto de sobrevivência, nem sequer às nomeações principais chegou. O filme é-me muito querido: alia a magia que percorre o nosso imaginário à qualidade que tantas vezes confundo com seriedade. É uma história fantástica sobre a infância e uma oportunidade para ver Christian Bale em início de carreira.

A inocência de Jim em ‘O Império do Sol’

Foi preciso esperar por 1993 para Spielberg se superar a todos os níveis! Num mesmo ano, estreia o record de bilheteira (à data) – num aproveitamento digno de um marketeer profissional – da febre dos dinossauros com Jurassic Park, e faz cair com estrondo um dos melhores filmes de todos os tempos, uma história poderosa, dramática e real sobre o holocausto, A Lista de Schindler, que lhe deu finalmente o óscar, consquistando o reconhecimento que faltava. O filme é tão bom que ofusca quase tudo o que o realizador veio a fazer posteriormente. A excepção deu-se cinco anos mais tarde, com O Resgate do Soldado Ryan a trazer-lhe o segundo óscar e uma das sequências mais impressionantes e realistas algumas vez filmadas – o desembarque das tropas na Normandia no dia D. Não sou um fã incondicional deste filme… a segunda parte perde-se um pouco na “enfadonha poesia do herói americano” mas ainda assim, é um filme que merece ser visto. Praticamente toda a restante obra que vi que Spielberg depois d’A Lista de Schindler foi pobre, e nessa pobreza incluo Munique, Amistad, Lincoln, Inteligência Artificial, A Ponte dos Espiões ou Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Esta apreciação é relativa já que, colocada em confronto com as primeiras duas décadas do seu trabalho, transforma filmes medianos (ou até aceitáveis) em obras menores. Dos títulos referidos, nenhum é um mau filme mas não se comparam com qualquer um dos que referi antes. Uma excepção: o quarto filme da saga de Indiana Jones é mau demais em qualquer parte da Via Láctea!

No entanto, a Spielberg tudo lhe é perdoado.

Por aquilo que já nos ofereceu, pelo que nos fez sonhar, pela diversidade de obras que nos trouxe arriscando, em muitas delas, a reputação, pelo divertimento que nos proporcionou, pela tristeza que plantou em nós transportando aquele confronto com a História que tantas vezes deixamos encerrados nos manuais escolares ou no relato monocórdico de um documentário… por tudo isto, Steven Spielberg é um dos mais bem sucedidos realizadores de todos os tempos.

Ainda que nunca mais volte a fabricar uma obra assinalável, o que este fantástico profissional já alcançou daria para preencher duas ou três carreiras de sucesso.

Muito devo eu a Spielberg quanto à minha paixão pelo cinema. A riqueza e ecletismo da sua obra é de tal forma vasto que, no espaço a que me propus para escrever este texto não couberam aspectos da sua biografia.

Resta-me agradecer o que Spielberg nos deu e tem dado e aguardar (com uma expectativa controlada) pelo remake de West Side Story – Amor sem Barreiras, O Rapto de Edgardo Mortara e um quinto título da série Indiana Jones, projectos que neste momento tem “na calha”.

PS: À semelhança de outros artigos de “Vida e Obra”, baseio-me apenas nas obras que vi pelo que é possível que a minha opinião fosse diferente, assim o tempo e disposição fossem infinitos.

A cena do duche é uma das mais arrepiantes de ‘A Lista de Schindler’: um exercício perfeito sobre como alcançar um efeito e incomodar o espectador sem mostrar o que todos nós (ante)vimos
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António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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