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“Não tenho os recursos necessários” – Kamala Harris, 2019

Kamala Harris e o Deja Vu. Continua sem ter os recursos necessários. Embora eles não sejam necessariamente financeiros. Como é que lhe escapou a corrida ao primeiro lugar pela segunda vez?

Quem é Kamala Harris hoje? A eterna vice-presidente colada ao número dois e, contudo, grata por fazer parte da máquina? Ou frustrada porque a mesma máquina que a elevou, a trava agora? O americano médio não se revê na filha de imigrantes que alcança o topo. Mesmo que ela represente o american dream cumprido e, por outro lado, os negros e mulheres reclamam. Dizem que Kamala não escolhe elevar a voz para os defender.

Os Estudos

A menina nascida em 1964 em Oakland, Califórnia. Filha  de Shyamala Gopalan, cientista  indiana ligada à investigação de cancro da mama, e de Donald Harris, um professor de economia de origem jamaicana. Imigrantes mas não exatamente desfavorecidos. Separaram-se quando Kamala tinha cinco anos.

Kamala, que em sânscrito significa Flor de Lótus,  frequentou o ensino público, embora o tenha feito num estabelecimento  de elite em Berkeley.  Terminada a escola secundária, Harris entra na Universidade Howard, uma instituição de ensino ligada ao lobbie negro em Washington.  Aqui estuda ciências políticas mas também economia até 1986. Contudo, ainda não termina aqui o percurso académico. Forma-se, mais tarde, em Direito no ano de 1989 pela Universidade da Califórnia, pelo Hastings College of the Law, em São Francisco. E é ligada ao Direito que a sua carreira se constrói.

A Carreira

Harris começou a trabalhar como procuradora distrital adjunta na cidade de São Francisco. Em 2003 foi eleita procuradora distrital da mesma  cidade e também a primeira mulher negra a ocupar o cargo. Já em 2010, Harris foi eleita procuradora-geral da Califórnia e repete-se.  Passa a ser a primeira mulher negra a ocupar o cargo. Serviu igualmente como procuradora-geral da Califórnia até 2017. Em janeiro desse ano, Kamala Harris foi empossada no Senado em Washington e é a primeira mulher do sul da Ásia e a segunda senadora negra na história. Em 2016, Harris foi eleita senadora dos Estados Unidos pela Califórnia. E é reeleita em 2020. Uma escadinha sempre a subir. No entanto, o caminho  também se fez de paragens.

Corrida à Casa Branca

Harris foi uma das principais candidatas democratas à presidência em 2020. Mas abandona a corrida em dezembro de 2019 usando a expressão: “Não tenho os recursos necessários.”, referindo-se à falta de fundos para permanecer na corrida. Ainda assim, foi escolhida por Biden para número dois.

Kamala Harris é empossada como a primeira mulher a ocupar o lugar de vice-presidente dos Estados Unidos a 20 de Janeiro de 2021 no Capitólio momentos antes da do chefe de Estado, Joe Biden. Investida por Sonia Sotomayor, a primeira latina a ocupar um lugar no Supremo Tribunal dos Estados Unidos, é a primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos. Em suma: todo um simbolismo a funcionar.

Nesta altura,  sonha com a Presidência, ainda que nunca o tenha assumido publicamente.  Kamala Harris olha para a o cargo de número dois de Biden como uma etapa no percurso de ascensão a que estava habituada. A imprensa em 2021 era unânime;  a ex-senadora entrava na Casa Branca como vice-presidente, mas certamente com os olhos postos nas eleições presidenciais de 2024. Vários analistas  consideravam que, aos 77 anos, o 46.º Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não ensaiaria uma recandidatura. Já sabemos que os prognósticos não se cumpriram.

A Senhora Áspera 

Na qualidade de vice-presidente, Harris assume o determinante papel de usar o voto qualificado sempre que houver empates no Senado. Com alta probabilidade de suceder, uma vez que a câmara alta do Congresso tem 50 lugares democratas e 50 lugares republicanos.

A vice-presidente disse não temer essa tarefa como também lembrou os desafios de enfrentar posições políticas contrárias e procurar consensos. Desafios esses que ultrapassou durante as eleições primárias do Partido Democrata. Foi nesse contexto, e contra Biden,  que Kamala Harris protagonizou alguns episódios mais agressivos da campanha. Chegou a atacar Joe Biden pelas suas posições relativamente a políticas de segregação racial  nos anos 70, altura em que Biden negociou  com políticos republicanos relativamente ao tema busing; em discussão estava a partilha onde autocarros escolares. Biden apoiou a ideia de que cada Estado deveria poder decidir acerca da partilha de autocarros por crianças brancas e negras.

Nas primárias democratas, o seu passado como procuradora foi usado como arma de arremesso político. Os adversários recordaram a sua reputação de ser muito áspera, em particular quando se tratava de condenar pessoas por pequenos crimes, o que geralmente acabava por atingir as minorias étnicas da Califórnia.

O Conhecimento  da Lei

Mas foi a sua experiência como procuradora que também lhe permitiu um forte conhecimento das questões jurídicas associadas à lei eleitoral em vários estados, de grande utilidade para contrariar os argumentos dos republicanos sobre a legalidade dos resultados das eleições presidenciais.

Aliás, Harris acusou os republicanos de tentarem manobras legislativas para tentar obstruir o voto das minorias:

“Porque é que acham que eles vos estão a tentar impedir de votar? Porque eles sabem do poder do vosso voto”

– Kamala Harris, durante um comício no estado da Geórgia, com uma forte presença de afro-americanos

Movimentos de Apoio

Após a onda histórica de raiva contra o racismo e a violência policial, Kamala Harris foi um dos rostos mais visíveis nas promessas políticas de erradicação de injustiças sociais. E o movimento Black Lives matter contou com ela. O lobby negro apoiou Harris desde o início da sua carreira política. Ela assume-se, desde jovem, como uma forte defensora dos direitos civis e da justiça racial. Gosta de relembrar a adesão, nos tempos de estudante, ao movimento estudantil  Black Student Union (União de Estudantes Negros). O Black Student Union foi um movimento dos anos 60, em resposta à segregação racial nas universidades americanas. O movimento defendia a igualdade de oportunidades para os estudantes negros bem como tratamento igualitário a todos.

Harris é também uma defensora do feminismo. É membro do Women’s National Democratic Club e do Women’s Forum. O movimento feminista tem sido um grande apoio a Kamala. Ela foi a primeira mulher negra a ser eleita procuradora distrital de São Francisco e procuradora-geral da Califórnia.

Estes dois braços de apoio a Kamala Harris  dão sinais de fraqueza. O nível de insatisfação com Kamala Harris é transversal aos vários grupos de eleitores que formam o seu suporte desde os tempos de senadora. E estes especificamente também estão insatisfeitos com a vice-presidente.

A Senhora Pouco Vocal e as Sondagens

As sondagens mostram que Harris tem uma taxa de aprovação baixa, perto dos 40%. A taxa de aprovação de Joe Biden ronda os 45%.

Os piores resultados relacionam-se com critérios relacionados com liderança; grande parte dos americanos consideram-na uma líder fraca e ineficaz para lidar com questões muito importantes para os inquiridos como a inflação ou a imigração. É também percebida como uma pessoa quer desarticulada, quer pouco carismática, bem como possuindo fraca capacidade de comunicação. E existe uma grande fatia de potenciais eleitores que lhe dão nota negativa no tema da identificação; consideram que a vice-presidente não entende os problemas do americano médio.

Os negros e as mulheres, supostamente dois grupos de peso de apoiantes, mostraram-se especialmente desiludidos com a vice-presidente. O desencanto com Harris agudiza-se entre os eleitores negros, que a encaravam como uma representante das suas aspirações. Uma sondagem recente do Pew Research Center revelou que apenas 56% dos negros aprovam o seu desempenho.  Uma quebra de 14 pontos percentuais desde a tomada de posse. A administração Biden tenta ir ao encontro das necessidades especificas deste grupo de apoiantes para recuperar a confiança, como nos conta o USA Today.

O movimento feminista junta mais críticas ao bolo relacionadas com a atuação de Kamala Harris. Em 2022, a vice–presidente foi criticada pela sua resposta à decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América que anulou o direito ao aborto. Acusaram-na de não ser suficientemente agressiva na defesa do direito ao aborto. A sua voz não se elevou o suficiente.

Trump na Soleira da Porta

Para agravar, e de acordo com as últimas sondagens, Donald Trump está à frente de Joe Biden na corrida presidencial dos Estados Unidos de 2024.  Na  sondagem realizada pelo The New York Times/Siena College, Trump recebe 50% das intenções de voto, enquanto Biden recebe 49%. Esta é a primeira vez desde que Biden assumiu o cargo que está atrás de Trump nas sondagens. A sondagem também mostra que Trump está à frente de Biden em cinco dos seis Estados chave que decidiram as eleições de 2020. Ora, Trump lidera Nevada, Geórgia, Arizona, Michigan e Pensilvânia. E Biden apenas se destaca no Wisconsin.

A Flor de Lótus submersa

E Kamala? A vice-presidente parece não ter os recursos necessários para assumir uma candidatura em nome próprio à Presidência.  Mesmo que não sejam financeiros, agora.

Perdeu terreno porque não chega ao americano sem preocupações raciais e cujo centro será a própria subsistência, a manutenção de emprego e nível de vida. Nem chega ao americano que deseja que as verbas canalizadas para apoio à Ucrânia ou a Israel, sejam gastas dentro de portas. E, ainda assim, parece também já não chegar às minorias. Porque usa do discurso moderado no apoio que lhes presta para não perder a simpatia das maiorias. E assim se despersonaliza. Entra em processo de erosão numa fase em que o mundo pede lideranças claras e  firmes nos seus propósitos. E se trocam as tentativas de consenso por clarificação. Tudo se decidirá em 2024. E parece ser, novamente, entre Biden e Trump. Se os prognósticos não falharem.

A flor de lótus permanece, como se fosse noite, fechada e submersa na lama do lago. O sol não brilha para Kamala desabrochar.

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