A curiosidade pode ter matado o gato mas, a mim, tem-me mantido viva.

Confesso que já tinha saudades do entusiasmo de voltar às aulas. Não falo daquela vontade de rever os amigos e colegas que muitas vezes já não via desde o início do verão, como quando era miúda, nem sequer daquele prazer imenso em escolher o material, o estojo, o dossier e as canetas, com renovados votos de que desta vez é que vou ter os cadernos direitinhos e com letra legível do início ao fim do ano. Falo mesmo da vontade de aprender. Agora que a escolaridade obrigatória já ficou muito além, é tão compensador podermos escolher áreas que nos atraem e em que sentimos necessidade ou apenas um prazer imenso em aprender mais e mais.

Ao fim de algum tempo sem formação extratrabalho, resolvi voltar a sentar-me, não nos bancos da escola, mas na cadeira lá de casa, por detrás dum computador, a assistir a aulas on-line. Estes tempos covidescos podem ter-nos tirado muita coisa, mas felizmente, proliferam por aí um sem número de cursos interessantes que podemos acompanhar no conforto do lar. Não sendo o mesmo que ir a aulas presenciais, é no entanto promotor do conhecimento e serve perfeitamente como mata-fome desta vontade que de quando em vez se manifesta em mim.

Desta vez inscrevi-me em cursos de escrita, e tenho que confessar que só sei que nada sei. Algumas vezes sinto-me profundamente ignorante, outras tomo conhecimento de coisas que faço de forma empírica, por instinto apenas. Deslumbro-me com o trabalho de terceiros, apuro técnicas, divirto-me. Alguns dias são puxados, outros saboreados. Sinto-me mais rica, e é assim que nos sentimos quando nos permitimos ir à janela e ver que o mundo é muito mais extenso do que a nossa casinha acolhedora. Há um mundo à espera de ser descoberto, assim tenhamos curiosidade e energia. Um professor, uns quantos alunos curiosos, uma aplicação, e estão garantidas as condições que nos levam mais longe.

É muito bom substituir o que não sabemos por descobertas maravilhosas, conhecer pessoas que compartilham dos mesmos interesses, e também ver a evolução de cada um, dia após dia, entre conversas e risos. A forma como cada um contribui para a turma é muito enriquecedora e acredito que todos o façam, na partilha das suas experiências e opiniões. Sair de si, contrariando estes dias que nos segregam a sociabilidade. Ir para fora cá dentro, numa reinterpretação plena.

Eu gosto, ai como gosto,  de pessoas que vibram nesta vontade contínua de aprender. Gente que não acha que sabe tudo, ou que não tem mais para aprender, ou que se desinteressa, na apatia de quem já cumpriu todos os sonhos e vive de empurrar a barriga. Recordo-me que quando fiz a pós -graduação, tinha cerca de 25 anos, uma alma muito pouco iluminada me perguntou: Mas já não tens emprego? Mas já não queres casar? Vais estudar porquê?  Nunca percebi esta miopia,  talvez porque o meu pai entrou na Faculdade Clássica de Direito com 40 anos e terminou a licenciatura um pouco além dos 5 anos, mas fê-lo, enquanto trabalhador-estudante, por gosto de aprender e não tanto por necessidade de progressão na carreira. Pode ser uma excentricidade, mas há quem de facto goste de aprender.

Deixo-vos com este poema, que conheci recentemente, de Giuseppe Ungaretti, que na sua sumptuosa simplicidade, tanto diz:

“Manhã
Deslumbro-me
de imenso”
E a vocês, o que vos deslumbra?
A mim deslumbra-me descobrir coisas boas como esta.
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Comments 1
  1. Pensamos igual. Vontade de aprender, de conhecer novos horizontes. Idade é físico. Curiosidade é espírito. Parabéns e aproveite teu curso.

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