Viver a vida, do outro!

Eu conheço, tu conheces, ele conhece… Até parece exercício de conjugação verbal, mas é só maneira de exemplificar que todos nós conhecemos alguém que esquece de cuidar da própria vida para viver a do outro. Questão de prioridade, sabe?

Seja lá qual for o motivo – falta de ocupação, dependência emocional, personalidade, feitio – o ócio é o principal vilão causador. Quem tem mente ocupada não prioriza vida complicada e a objetividade, praticidade e discrição lideram.

Se fosse eu a conjugar o verbo, seria: sim, eu conheço!

São relatos relativamente até constrangedores. Daqueles que nos gera mesmo a tal da “vergonha alheia” – aquela que sentimos no lugar do outro. Deste, o bom senso e limite passam bem longe. Quem assim age, por vezes pode nem mesmo perceber – mas me custa um pouco, nisso, crer.  

Já quem tem a “vida roubada” perde privacidade. E não só.

Como diz minha avó, não posso “dar nomes aos bois”, mas… já vi mãe estagnar na vida, sem focar em trabalho, vida social e bom papo para ter como único assunto o filho. Passa o tempo a contar, toda vez sobre a tal faculdade que fez, a tal empresa que trabalha, que tem determinado ordenado, sobre a roupa de tal marca e a tal viagem de férias que ele fez. É tanto tal que nem o coitado do filho sabe o quanto é citado em roda de conversa – afinal, mora bem longe e só convive pessoalmente uma vez por ano. E dizem as más-línguas, que uma vez já basta! E a mãe? Segue sem outro assunto e sem qualquer atividade ocupacional. E nesse caso, nem é só com o filho. É também de qualquer pessoa próxima -e as não tão próximas. Quando vai visitar, é daquelas que se sentem em casa facilmente. Dão palpite na comida, na decoração, na roupa, nos hábitos. Se acha íntima sem ser. Perde a classe e o bom senso, sem perceber. E distância, dela, todos acabam por querer.

Já vi mãe – de filho crescido e com família formada – mudando de país para ir atrás do projeto de vida que não a pertencia. Largou apartamento, trabalho, outros filhos e netos para trás e foi em busca de nada, a não ser a vida do outro. O outro com mais de 40 anos, esposa e filhos. E te conto: hoje, ela reclama. Reclama da nova rotina, da falta de privacidade, do filhote não estar sendo supostamente bem tratado pela mulher, por não ter boa relação com essa nora…. Enfim, o que vale é reclamar e invadir a privacidade de quem nem sabe como se desvencilhar disso.

E a própria vida?

Ficou para trás! Mas nem parece se importar. O que parece mesmo valer é, outra vida dominar. E viver.

E quem é, com isso, sufocada? A que veio viver a vida que não era dela ou a pessoa que recebera aquela que estava determinada a invadir, literalmente, o espaço alheio?

Tem também ainda aqueles que continuam a sua rotina, permanecem em suas casas sem grandes alterações, mas que tem como meta diária o cuidar da vida do outro.

Seja vizinho, parente, amigo ou só mesmo conhecido. É palpitando em situações que ninguém pediu qualquer palpite. É o ter prazer, mesmo que inconsciente, em viver sobre a sombra do outro. Como se a própria vida estivesse sem qualquer graça e estar preocupado em viver a vida alheia seja mais agradável.

Mas não é. Não para o outro.

Sufoca. Constrange. Aflige. Oprime.

Afasta. Agonia. Sufoca!

Para quem passa por isso é preciso dizer não.

É preciso se afastar e finalmente, viver.

Liberdade como prioridade. De corpo e mente!

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Comments 1
  1. Adorei essa reflexão sobre o quanto, muitas vezes, nos perdemos ao viver em função das expectativas alheias. É mesmo uma armadilha comum e o texto me fez pensar em quantas vezes deixamos de lado nossos próprios desejos para caber na vida do outro. Obrigada por esse lembrete tão necessário! Beijo.

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