As férias da escola já iam a meio, naquela longa eternidade de três meses das férias. A década de noventa findava, o medo da passagem para o novo milénio começava. Nós, ainda que de férias, não prescindíamos de aproveitar o dia e conseguíamos largar os lençóis cedo.
A manhã era sempre produtiva. O cheiro das ervas refrescadas pela água das mangueiras, o odor da terra molhada, as canções dos pássaros por recolher. Eram nestas primeiras horas do dia que a minha geração aproveitava para explorar a rua, a zona, a cidade e jogar. As ruas serviam de vigia, com vários tutores que conhecíamos como vizinhos de sempre, longe de um centro ainda não tão barulhento como agora, mas suficientemente fora de alcance para pré-adolescentes como nós. E era disso que vivíamos. Conhecemos toda a cidade suburbana como a palma das nossas mãos. Conhecemos pessoas, apelidos, dificuldades e virtudes. Fomos filhos de todos enquanto os nossos pais trabalhavam. Fomos crianças felizes.
De tarde, o calor intenso obrigava à recolha e a novas tarefas. Aqui entraram outros mundos na forma de páginas, jogos de tabuleiros e universos imaginados em pequenos pedaços de papel. A televisão ainda não era interessante; era muito melhor experimentar, tocar a terra, procurar animais desenhados em livros, imaginar fósseis em pedras desenterradas. Era, também, o tempo de imaginar desculpas para a hora de jantar, justificar visitas fora do limite autorizado e, ainda assim, contar o que vimos, com quem falamos, servir de noticiário local.
A visão é de alguém com 11, 12, 13 anos, mas encaixava perfeitamente num adulto ou nos nossos cuidadores. A década de noventa é sinónimo de harmonia, socialização noturna, seja nos cafés, passeios ou casa de vizinhos, ainda fora da necessidade capitalista emergente. O que fomos está espelhado nas curtas linhas, mas o que somos agora?
Atualmente, somos reféns da tecnologia e das suas ferramentas ao longo de todo o dia. Substituímos a curiosidade e a liberdade pela necessidade de validação a cada passo; as conversas sentados num muro foram ultrapassadas pelas conversas de ecrã. Substituímos a vida na natureza pela vida digital. No fundo, substituímos o ser humano por um elemento híbrido; somos um peixe fora de água sem os nossos gadgets. Bastaram poucos anos para a perda de identidade e da verdadeira felicidade.
O caminho de retorno dificilmente será trilhado. Esta visão romântica da infância e da pré-adolescência não voltará para os jovens de hoje. Resta a eterna passagem de experiência dos mais velhos para os mais novos para que o fogo que antes ardia seja transportado pelas gerações mais novas. Sem a inocência de outrora, sem o vagar daquela década, mas que sirva para humanizar esta sociadade.