«Os trinta nomes de Deus», de Bruno Paixão

Um romance que poderia ser um livro de autoconhecimento. O leitor decide o seu caminho.

O segundo romance de Bruno Paixão, publicado em setembro pela Porto Editora, surge como a confirmação do autor. Completamente distinto do primeiro, Os segredos de Juvenal Papisco, tem como denominador comum apenas o traço autoral inconfundível, presente nos neologismos e no estilo poético, que decoram as páginas destes dois livros maravilhosos.

Enquanto objeto físico, o livro já se destaca. A capa, cuidadosamente elaborada, transporta, de imediato, o leitor para a ambiência mística e filosófica da história. Dividido em trinta capítulos, cujos títulos são constituídos por um par de palavras opostas, explora a dualidade ciência versus religião. Cada capítulo é introduzido por uma citação de uma religião diferente, destacada numa página de cor mais escura, o que cria um efeito visual e simbólico muito interessante.

Um rapaz muçulmano, filho de uma mãe solteira, questiona-se sobre a criação do mundo. Esta inquietação sobre quem é impulsiona-o numa jornada em busca de respostas para perguntas ancestrais, que o Homem sempre se colocou, sem chegar a solução. As personagens que o acompanham ajudam-no a perceber que as respostas são tão diversas como as pessoas que as procuram.

O livro aborda com profundidade questões como religião, espiritualidade e saúde mental. Promove uma fusão inusitada entre três religiões: o islamismo, o judaísmo e o cristianismo.

O leitor é convidado a repensar o seu lugar no mundo e a fé. É desafiado a posicionar-se perante a existência. A passagem do tempo leva os mais velhos a tentarem validar a sua vida, refletindo sobre o que fizeram, os sonhos cumpridos e os que ficaram pelo caminho. Uma posição tomada por Ahmin, o jovem que procura compreender-se a si, aos outros e ao mundo.

O livro abre diálogos profundos entre o Bem e o Mal. Crente no Bem, Ahmin também se questiona sobre o Mal e a posição de Deus acerca desta polaridade. Se Deus criou tudo, também criou o Mal. Quer, mas não pode eliminá-lo? Então, não é omnipotente. Pode, mas não quer? Então, não é misericordioso.

A espiritualidade contemporânea ajusta-se à atualidade. Encontramos várias cenas que fazem um paralelismo com as da Bíblia. Sendo o eixo central a dicotomia entre religião e ciência, sugere-se a interpretação de alguns milagres à luz dos novos conhecimentos científicos. Mas a verdadeira sabedoria só acontece se nos virarmos para dentro de nós. Um convite à introspeção. Fé e ciência colidem, mas também dialogam.

A crítica social a que o autor nos habituou perpassa pela obra, na forma subtil como as personagens refletem e agem, nas situações do quotidiano, o que remete para a relevância do livro na contemporaneidade.

Este é um livro que não traz respostas, mas, sim, perguntas. Começa com uma grande: como nasceu o mundo? Termina com uma abordagem verdadeiramente existencialista ‘’Ser esquecido é a verdadeira morte, pensou. Existiremos até à última pessoa que tiver uma memória de nós.’’ O Inefável Senhor Moshe.

Um romance belo e filosófico, um convite à introspeção, à busca do sentido da vida e à reflexão sobre o divino e o humano.

Este artigo foi escrito segundo o Novo Acordo Ortográfico.

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Comments 5
  1. Resenha extraordinária acerca do livro que também é extraordinário. Adorei lê-lo e será um livro que ficará para a vida. Grata Paula Campos.

  2. De uma forma eloquente, algo já habitual na escrita arguta de Paula, somos presos ao Livro. Aquele que me parece ser portador de uma mensagem forte e necessária. Sou grata à autora por ter escrito tão maravilhosa resenha.
    Não deixarei de o comprar!

  3. Livro cheio de lugares comuns roubados à mítica cristã. Escrita desconexa. Última frase repete uma banalidade bem conhecida. A não perder tempo com vulgaridades ditas em bicos dos pés.

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