A televisão tem o poder de criar personagens que ficam mais fortes que os que lhe dão corpo. Olivia Benson é a mulher de armas, a que subiu a pulso na vida, para chegar onde está. Muitas das vezes teve de engolir sapos para que tudo tivesse o melhor dos finais.
Afinal quem é esta mulher? Quem lhe dá vida é Mariska Hargitay, a detective que vai deslindando os casos dramáticos de violação numa série de nome Law & Order: Special Victims Unit. Tem de lidar com situações muito delicadas e de grande dor. As vítimas nem sempre colaboram, pois a sua integridade foi colocada em causa.
Para que tal seja possível, terá de se esquecer de si, necessita de mostrar a sua empatia e entrar na emoção de terceiros. Não será fácil acalmar dores que ficam com cicatrizes para sempre. O certo é que o público sentiu a sua pele e a série vai já na 24ª temporada. De 1999 a 2023 foi um pulinho de gigante.
Agora é a capitã, a pessoa responsável pelo departamento e assume todos os deslizes que possam ser cometidos. É extremamente humana e esconde a sua vida pessoal que tem os seus quês. Teve a hombridade de adoptar o filho de uma pessoa muito perigosa e, como qualquer mãe, faz tudo por ele.
Criou laços com a sua equipa e gosta-os de formas adequadas, qual galinha com os pintos que sabe serem diferentes. O facto de estar nesta equipa tem raízes pessoais, já que é filha de uma violação, o que lhe permite estar ao lado de quem passou pelo mesmo, com dignidade e paciência. Noah, o filho, será a âncora e o bálsamo para seguir.
Nesta série encontram-se todos os tipos de violadores, de crimes cometidos contra pessoas, crianças e idosos. Uma barbaridade que parece ter adeptos que sentem prazer em rebaixar o seu semelhante. Uma questão de poder, mas mal resolvida e com muitos braços de polvo. As fraquezas e complexos são problemas mentais problemáticos.
A questão que se coloca é a óbvia, quem é Olivia? Apenas uma personagem fictícia, desempenhada com mestria por uma mulher que tem origens tão curiosas como tristes. A sua mãe era a conhecida actriz Jayne Mansfield, a sex symbol que tem um acidente de carro em que morre, sendo os seus filhos salvos, quase milagrosamente. O pai, Miklos Hargitay, foi o Mister Universo de 1955, posteriormente actor e modelo.
O seu segundo nome é Magdolna, que se entende como Madalena, ou seja, Maria Madadena, um augúrio da sua futura carreira. Aos três anos e meio ter sido vítima de um acidente que lhe rouba a mãe, é uma marca profunda que se nota numa cicatriz na cabeça. Quem diria que as cicatrizes seriam medalhas?
Nada disso foi impeditivo para que a menina não crescesse e se fizesse uma mulher em grande. Fala fluentemente cinco línguas, inglês, francês, húngaro, castelhano e italiano. Uma verdadeira poliglota. As curvas da vida podem dar uns resultados interessantes.
Casada com Peter Hermann, de quem tem um filho, nascido em 2006, veio a adoptar uma menina e, mais tarde, um rapaz, em 2011. É co-fundadora da Joyfull Heart Foundation, uma organização que apoia pessoas que sofreram ataques de teor sexual. Como o seu pai faleceu de melanoma, tem sido um membro muito activo da Multiple Myeloma Research Foundation.
Não sei se andará perto da perfeição, mas sei que teria muito gosto em estar ao seu lado nas lutas que considero de grande relevo. Sem vedetismos nem nada de manias, que se lhe conheçam, Mariska, a caminhar para as seis décadas de vida, é uma actriz que me convence e comove. Certamente que há muito de Olivia na sua pessoa emprestada. Ou talvez seja o seu oposto.
Parabéns aos argumentistas, aqueles e aquelas que criam estas vidas falsas e de quem ninguém se lembra. Nada cai do céu e aparece feito. São eles que, de mente aberta, inventam novos mundos que em muitas das vezes são bastante mais fáceis de suportar que a vida real. Há ficções mais suaves e actrizes que lhes dão a vida forte.