Impostores

Somos impostores e ladrões. Carregamos o que não é nosso com leveza e levamos o emprestado como se a carga fosse de cristal único e perfeito. Somos os que estão de passagem numa terra que não é nossa mas que nos faz criar laços muito especiais. Tomamos a sua posse sem devida autorização.

Quando um dos que amamos parte, o cristal deixa de ter a sua nobre pureza e faz verter umas lágrimas tão duras e carregadas de rugosidade, que magoam o coração. Quase somos descobertos mas seguimos como se tudo fosse natural e sabemos que voltará a acontecer.

Impostores por amarmos incondicionalmente e sem qualquer tipo de controlo em sentimentos. O coração é ditador e faz de nós ingénuos reféns. É um estar preso por contentamento até que a dor faça sangrar com intensidade. E nunca se quer deixar de sentir a dor até a mesma fazer desesperar.

Ladrões por querermos, com um egoísmo atroz, que nunca nos apartemos de quem nos aquece a alma e dá o calor da continuidade. São nossos, mas a vida leva-os sem aviso e com violência infinita. Essa, a que tudo regula, também é uma ladra e não há tribunal que a consiga condenar.

A vida é um filme sem guião e com inúmeras cenas de equilíbrio instável. Ao menor tremor, a construção da casa que fizemos, abana e pode desmoronar. Os tão imprevistos abalos são usurpadores cheios de fel e requinte. Contudo repetem-se e a casa continua firme, mesmo que as brechas deixem passar a humidade das ausências.

Somos impostores e, um dia, seremos desmascarados em praça pública, com lágrimas de sangue e vergonha que se acumula. Como foi possível amar tanto que se sente, agora, o coração a mirar? Como se pode evitar o amor? Como se ignora ou fecham as emoções? Como permitimos que se sinta?

Somos ladrões, e seremos apanhados por uma maior autoridade que é a vida. No entanto, também esta pode mostrar o que é compaixão e empatia. Há dias que são tão bons que não se desejam terminar. Morremos um dia, sem nada, sozinhos, apenas partimos deixando os outros sem nada. Somos tanto e afinal somos nada.

Impostores, por disfarçar a dor e ladrões por termos a ousadia de colecionar memórias e doces momentos que jamais se poderão repetir. Pior que tudo, vivemos na ilegalidade com asas emprestadas e suspiros que se evaporam em eras que desconhecemos. Não restam dúvidas, seremos desmascarados.

Somos o quê? Nada, apenas células que se juntam aleatoriamente. Azar ou sorte? Aglomerados de unidades básicas em que o coração, esse vadio e bandido, arrasta os que o têm, pelas ruas da amargura e ainda o faz no fel de se sofrer. Não obstante a dor, o amor é o guia perfeito e salutar.

Os que partem muito antes do tempo, os que se vão por tempo gasto, os que desistem de viver, são tão dignos de serem recordados com o mesmo amor e um imenso carinho que qualquer outro. Somente os deixamos de ver e essa cegueira dói.

Viver é a aventura maior que nunca permite repetições, mas que é a rainha das emoções. Viver é a lira que toca com mãos delicadas e que solta notas muito perfumadas e sonhadoras. O limite é desconhecido, mas persistimos em vê-lo como inatingível ou impossível. Limitar é encurtar e, na verdade, viver é algo de tão fenomenal que não se permitem asas curtas quando o voo é maior.

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