Visão sem poder jogar

O futebol é um jogo muito bonito. Dizer isto só é uma verdade Lapalisse que acrescenta pouco: era uma esperança do futebol regional, quando tive o meu acidente/despiste de automóvel (2006) com 25 anos e deixei de conseguir andar e correr para jogar.

O corpo mudou um pouco a sua capacidade, mas despertou outras qualidades.

Estava a pensar hoje numa insónia matinal em como fazia coisas maravilhosas com uma bola nos pés, nas pernas, ancas, coxas até com a canela. Mais que com a parte superior do corpo, braços, pulsos e mãos, porque nunca tive grande jeito manual, nunca fui jeitoso.

Coisas que nunca mais conseguirei fazer e que ficam gravadas nas memórias.

Jogava bem com os dois pés, dava toques e levantava a bola de mil maneiras, assim como a parava à minha vontade com habilidade e toques múltiplos – parecerá aldrabice e vaidade, mas, se eu é que sei o que fazia, que me interessa a vossa inveja? Laterais direita, esquerda, corpo superior e inferior… 1,82m de gente em movimento.

De 2006 a 2013, estive bem para lá, em coma e recuperações no S. Francisco Xavier, Amadora Sintra e Alcoitão e desinteressei-me pela bola por falta de alimento: jornais, ver jogos em direto, ouvir comentários por estar internado e só ter conversa com a corrente entre utentes, pessoas deficientes e em recuperação, pessoal auxiliar, enfermeiro, terapeutas e médicos.

A atividade é outra.

Passado alguns anos, após ter saído de Alcoitão, fui incluído numa equipa juvenil, onde tinha jogado, por um amigo, o Mister Pedro Figueiredo – alguém que compreendeu, com algo mais que amizade, que a inclusão numa equipa técnica juvenil onde tinha jogado daria um acrescento de motivação e passei a acompanhar a equipa e sua formação/educação. O futebol passou a ter novo encanto para mim e os jovens craques ganharam um fã.

Foi uma prova de grande inteligência, assim funciona a sociedade. Eu funcionaria como um catalisador, que aumentaria a velocidade da perceção humana daqueles jogadores. Tornei-me motivador e aprendi como isto pode ser importante nas relações. O futebol relançou-se em mim, ganhou nova beleza e tornaram-se importante as suas vitórias.

O mundo do futebol a partir de uma cadeira de rodas

O futebol já evoluiu tanto como o ser humano e a sociedade, um jogo que desafia o (des)equilíbrio humano e o jogo com os pés. Não é nada óbvio o conceito e chama público um pouco por todo o lado, dos mais pobres aos mais ricos. Desafia o individual e o coletivo. Um jogo de equipa que é feito de individualidades e técnicas.

Há o preconceito intelectual de que é um jogo básico, mas é um erro enorme. É um jogo que pode ser muito inteligente e pensado, com táticas que ganham jogos, timings e jogos de resistência. Existem ainda os chamados mind games, feitos pelos treinadores mais adeptos dessa vertente antes do jogo.

Pode ser simples ou complicado, apaixonante ou desprezado, tantos adjetivos. É a imaginação humana ao seu mais alto nível. Mesmo quem nunca jogou e só assiste sem perceber nada acha piada a tanta emoção e paixão à volta do jogo. Talvez, não tanto como já tenha jogado e já não jogue por idade ou por maleita, mas é sublime que quem nunca tenha jogado possa ficar preso a este jogo.

Novas dinâmicas, renascimentos podem dar-se, enquanto treinadores a encarnar novas vidas e sofrimentos pelos jovens talentos a melhorar. O futebol é uma forma de educação bem bonita para o viver com o outro, em equipa, na sociedade e ter regras. Há novas gerações paternas que levam os filhos ao futebol e se tornam adeptos deles

Amador ou profissional?

Futebol amador por quem ama, eu duvido que quando se torna profissional se perca o amor. Na essência todos terão a memória de onde vieram e onde cresceram, os seus antecedentes vivem neles.

Quer dizer, o futebol perde piada, quando cresce o dinheiro à sua volta, mas não perde totalmente o amor. Raramente, um jogo é bom ou mau na totalidade, são muitas pessoas… 22 só jogadores titulares + 6 árbitros + técnicos + suplentes X 2 = mínimo 10 por banco, 48 pessoas sem público + funcionários, etc.

E o racismo, capitalismo e outros “ismos” passam a ter novas questões que podem funcionar tanto para o mal como para o bem, podem ser usados como forma de minimizar as diferenças e ganhar novos respeitos. Por isso, o meu caso é emblemático. Se a princípio lhes fazia confusão ver uma pessoa em cadeira de rodas, agora sorriem e abraçam-me, quando marcam golos.

O futebol profissional ganha exigência, mas perde doçura na brincadeira. Com a profissionalização, ganha necessidade de eficácia rápida ou talvez não. O profissionalismo pode ser uma forma de ganhar eficácia e qualidade. O jogador deixa de ser o mais veloz, o mais rápido e o mais egoísta, para ser o mais eficiente e o mais altruísta, menos brinca na areia.

Talvez isto não seja tão verdade quanto parece, porque há de tudo um pouco. Cada jogador é particular e não se pode falar assim no geral: profissionais e amadores. Torna cada jogador em peças numa máquina. As táticas e esquemas desde a infância, teorias que ensinam, tanto são limitadoras como libertadoras.

É um jogo que se joga com o corpo todo. A mente animada é muito importante, o tronco que coordena o jogo entre o hemisfério direito e esquerdo e as pernas direita e esquerda, ancas, joelhos, canelas tornozelos e pés.

O futebol, quando é bem jogado, é sempre bom.

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