“A mulher do dragão vermelho”, de José Rodrigues dos Santos

30Ainda não tinha lido nenhum livro do José Rodrigues dos Santos mas senti-me atraída pelas capas, eu sei: não se deve julgar um livro pela capa, mas este tem duas e por isso a tentação de julgar foi maior.

Gosto de dragões e gosto de vermelho, gosto até de alguns conceitos chineses, o que poderia querer melhor? Páginas adentro, encontro o mapa da China e uma referência que a obra é de ficção, mas inspirado em factos verídicos. Intrigante, achei eu.

O primeiro capítulo leva-nos à aventura intercalada com histórias de vidas. Talvez seja o estilo do autor, desconhecia mas prendeu-me a atenção porque ao mesmo tempo que o presente vem ao de cima o passado não é esquecido. E é assim que, de mansinho, começamos a entender que vêm aí “teorias de conspiração”.

Confesso que não sou fã de teorias de conspiração, mas fiquei curiosa, porque à medida que vamos mergulhando na história compreendemos o que  realmente é: um desfile de factos analisados e comprovados associados a  uma personagem que acabamos de conhecer. Muitos dos factos relatados são históricos, aprendemos nas intermináveis aulas de história e talvez seja por isso que acreditamos que ficaram no passado (demasiado austeros para ainda viverem nos nossos dias) e outros são revelados nos noticiários de um canal qualquer.

Fiquei maravilhada e preocupada. Maravilhada, porque o autor realmente me prendeu a atenção e pôs-me a ler noite dentro e preocupada porque o mundo é muito pior do que eu pensava (ou pelo menos gostaria).

Este romance deixa bem claro e evidente posição da China em relação ao mundo e a visão que tem de si mesma. Correcção: da China não, do Partido. É importante e relevante fazer essa distinção.

As relações comerciais e interesseiras da China e da Rússia ficam bem claras ao longo das páginas e justifica a relação pouco saudável com os EUA.  Sendo José Rodrigues dos Santos um jornalista de renome, é certo que todos estes conceitos políticos tinham que vir ao de cima mas sinceramente mais do que política, o que li foi mais sobre mentalidades, culturas, percepções e imposições. Um modo de vida, uma cultura destruída pela sede de poder. O  autor põe-nos a reflectir e ajuda-nos a compreender o que está escondido, mesmo sabendo que ainda há muito por desvendar.

Eu realmente tinha expectativas sobre o mundo, talvez tu também as tenhas mas é como se este livro viesse deitar por terra essas expectativas. Não é bom, não é mau, apenas te abre a porta para outras possibilidades. Foi por isso que gostei tanto deste livro, de certa forma foi um abre olhos, um rebentar da bolha da ilusão e faz compreender que lá porque estamos praticamente do outro lado do mundo, não quer dizer que não fazemos parte desta luta constante de imposição e poder universal.

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