Lisboa, menina e moça

drama. morte. sexo. inveja. romance

esta é a história de Tó-Zé Marreco, um anão que servia à mesa na reputada casa de diversão nocturna “Um fado e uma fada”, em Alfama, cujo proprietário, José Carlos Marreco, sofria de profunda dislexia.

bom, não será a história acabada. e não será apenas a história de um anão. estes, são somente os aperitivos.

segundo os fidedignos relatos escritos à mão numa toalha de mesa em rolo, encontrados na cave do centro paroquial, a história completa reza mais ou menos assim: corria o ano de 1985, o dia nascera atrás da Sé. abandonado numa cestinha de palha à porta da casa de diversão, o bébé foi adoptado de imediato pelo dono da casa, vendo nele uma solução para a sua esterilidade. embrulhou-o num pano de limpar a louça, deu-lhe nome e um bagaço para matar o bicho.

Tó-Zé Marreco “foi crescendo” feliz, rodeado de ilhargas, trastes e cravelhas, pratos, travessas, sobremesas e gemidos no andar de cima. aos 15 anos de idade e 25 centímetros de altura já Tó-Zé Marreco sabia falar francês e tocar piano. tentou aprender contrabaixo, mas depressa desistiu porque não havia o seu número, nem mesmo na Zippy. rapidamente se habituou ao chiar das cordas, aos aplausos eufóricos, às vozes sofredoras dos fadistas, às rimas das letras e aos gemidos no andar de cima.

fez-se homem, apesar de se revelar curto das pernas. antes de atingir a maioridade já ganhara tiques de fadista: usava lenço ao pescoço, falava em verso, abanava a cabeça, uma das mãos sempre no bolso. aos poucos, foi-se tornando uma celebridade, ofuscando os artistas que actuavam regularmente no estabelecimento.

conhecido como o maior anão do mundo, o seu charme e a sua paixão por mamas descaídas ganharam fama entre as clientes estrangeiras, fazendo crescer a inveja de Zézé Camarinha, o qual se viu obrigado a lançar a campanha “Put a cream – anda cá que eu não te aleijo”, direccionada ao mercado inglês, com o objectivo de não perder quota de mercado.

mas foi quando conheceu Juliana, filha da nova sopeira do estabelecimento, que a sua vida mudou para sempre. Juliana e a mãe, Linda de Suza – uma falhada cantora de fado que regressara de França com uma mala de cartão, uma filha e um buço proeminente –, ficariam a morar num dos quartos do andar de cima, onde se ouvia a chuva a bater no telhado, o arrulho dos pombos e os gemidos.

a primeira vez que Tó-Zé Marreco a viu, Juliana estava nua. a porta do quarto entreaberta, ela deitada de lado em frente à janela aberta, a olhar o Tejo, enquanto ouvia Carlos do Carmo, “lisboa, menina e moça, da luz que os meus olhos vêem, tão pura, teus seios são as colinas, varina, pregão que me traz à porta, ternura”. e que belas colinas, pensou ele, apaixonado, enquanto mexia na pilinha.

e foi assim todos os dias, à mesma hora, durante 15 dias: ela nua, ele a espreitar pela porta do quarto entreaberta, ela deitada de lado em frente à janela aberta, a olhar o Tejo, enquanto ouvia Carlos do Carmo, “lisboa, menina e moça, da luz que os meus olhos vêem, tão pura, teus seios são as colinas, varina, pregão que me traz à porta, ternura”. e que belas colinas, pensava ele, apaixonado, enquanto mexia na pilinha.

rumores de um romance trazem à cena a voz pacificadora de José Carlos Marreco, declarando que nestas alturas é preciso calma, manter a cabeça bem assente no chão e que pessoas que dizem “moisacos” e “vocêses”  deviam sofrer “angelinas de peito”. ao invés, e seguindo as boas práticas e os bons costumes da igreja católica e das refeições em 15 minutos de Jamie Oliver,  Linda de Suza quis deixar tudo em pratos limpos: casariam e teriam filhos.

na noite do casamento, depois de muito haxixe, álcool e rebuçados bola de neve, José Carlos Marreco confessa a todos os funcionários do estabelecimento que, por causa de uma soda, ficara com sidra. entre uma passa e um gole, Linda de Suza, devota a Deus e ao senhor dos anéis, comenta que o pai de Juliana morrera antes de a conceber, facto que a aproximava ainda mais ao fenómeno milagroso cristão. amén!,  disseram todos.

passados dois meses, Tó-Zé Marreco cumpre o sonho de ser pai; passados dois anos, o seu filho Marco mede 1.95 metros de altura, um fenómeno que a ciência explica como “corno”. Por altura do décimo oitavo aniversário de Marco, fazem um churrasco e é aí que José Carlos Marreco confidencia que carne de porco lhe faz gases. nesse preciso momento, decide virar-se para o veganismo, mas vira-se tão depressa que cai da escada, partindo o pescoço e três  vasos chineses.

o desgosto apodera-se de toda a gente. com o objectivo de apagar as memórias trágicas da morte, decidem vender o estabelecimento. gastam todo o dinheiro em raspadinhas. perdem tudo.

à beira da depressão, Tózé-Marreco foge com a amante estrangeira de 93 anos; Juliana e a mãe voltam para França, onde abrem um restaurante de bifanas de Vendas Novas. Marco decide permanecer em Portugal, ingressa nos CTT e faz uma brilhante carreira como carteiro. fica conhecido como marco dos correios.

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