Gurulândia

Numa humanidade que se tem esquecido rapidamente que é uma espécie e num enorme paradoxo causado pela necessidade de sobreviver, um dos caminhos mais fáceis que temos encontrado para o fazer é tornarmo-nos gurus, influenciadores ou opinion makers profissionais.

A sociedade anda desprovida de valores reais e verdadeiros, pessoas espezinham pessoas para alcançar desesperadamente os seus objetivos, no entanto, todos temos algo a dizer sobre algo, sendo os temas favoritos o conselho para viver melhor, comprar melhor, amar melhor, votar melhor, tratar melhor do gato, poupar melhor ou o permanente primeiro lugar do top, o famoso ‘quem tem razão’.

Embora conheça alguns destes gurus, pelas banalidades que tornam públicas através das inevitáveis redes sociais, tenho a felicidade de não conhecer nenhuma intimamente, o que me deixa sempre na dúvida se cumprem os conselhos que dão. Mas estou convencido de que não.

É que uma coisa é dizer algo sobre o conflito entre Israel e a Palestina, é fácil, ouvem-se umas notícias, lê-se umas gordas, discute-se no café e está feito, outra é estudar a história e fundamentar as suas opiniões e conselhos, o que dá uma trabalheira principalmente quando a capacidade média de focar num único assunto de cada vez ronda os 8 segundos (lembro-me sempre do cão que fala no filme da Pixar UP, mas distrai-se constantemente quando ouve um esquilo).

Não há tema que se safe desta profusão de gurus. Sempre tive a perceção que um especialista é alguém que sabe como NÃO fazer e que um guru é alguém sábio e experiente, mas nos tempos que correm, qualquer pessoa que tenha feito dois prompts no chatGPT se torna imediatamente especialista em IA, uma miúda de 20 anos que teve o primeiro desgosto de amor decide aconselhar com sobranceria todas as mulheres sobre como proceder em todas as relações, ou uma senhora de meia-idade que se sente inútil, resolve limpar a alma fazendo uma associação não lucrativa para as vítimas das agulhas de croché, que de repente se torna lucrativa e ela salta rapidamente para o sucesso, seguido da invariável prepotência e de um fechar de olhos, ocasional, para tirar dinheiro para umas férias em Bali.

Não gosto de generalizações, e há pessoas de facto brilhantes e outras apenas experientes e ainda outras apenas sábias que vale muito a pena ler e ouvir, mas desde sempre, apercebemo-nos disso por atração, ou seja, elas não andam atrás de nós a impingir as suas maneiras de entender a vida, apenas o fazem quando a ocasião o permite.

Claro que a culpa não é destes supostos gurus da marmelada, é de todos nós que os seguimos, lemos, enchemos de coraçõezinhos nas redes sociais e ainda nos atrevemos a partilhar os seus despidos conteúdos por todos os que têm a infelicidade de nos seguir a nós.

Andamos mesmo esquecidos que somos mais de 8 mil milhões de indivíduos e que uma das mais deliciosas características da humanidade é sermos todos diferentes, ou seja, o que é verdade e resulta para um, não o é obrigatoriamente para o outro.

A única coisas que temos conseguido com estes comportamentos tem sido massificar conceitos e preconceitos, que ao invés de nos tornar pessoas melhores, nos transformam num aglomerado de crédulos, incapazes de pensar por si, a achar que estamos a melhorar-nos, obviamente primeiro ao ego, depois à nossa situação financeira e só depois, se for o caso, ao mundo.

Já agora, aproveito e deixo aqui a minha constatação enquanto guru de tasca: não precisamos de gurus que nos digam como melhorar o mundo, o mundo é que precisa, e muito, de pessoas melhores.

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