Da estupidez

Invariavelmente nos questionamos sobre como foi possível uma pessoa tão inteligente ter optado por uma decisão tão tola. Decisões tais como:

  • Aceitar um monumento em forma de cavalo, como homenagem, e que se tornou em símbolo de derrota de uma antiga potência;
  • Matar um dos embaixadores e humilhar os restantes, provocando a fúria do criador de um dos maiores impérios que a História conheceu;
  • Invadir a Rússia durante o inverno (mesmo quando a invasão anterior falhou pelo mesmo erro);
  • Oitava temporada de Guerra dos Tronos

Não sou da opinião de que hajam pessoas exclusivamente estúpidas1, por oposição a pessoas exclusivamente inteligentes. É por isso que a definição de tolo é insuficiente quando se resume o tolo a alguém que faz tolices. No entanto, existem traços comuns em todo e qualquer comportamento tolo, intencionalmente feito ou não.

Alguns dos erros comuns é subestimar a tendência a ter comportamentos tolos, até porque o Homem2 totalmente racional não existe; mas não podemos minimizar as consequências de comportamentos tolos para a sociedade (fake news são a ponta do iceberg). Ou seja, comportamentos tolos afetam mais pessoas do que apenas o próprio tolo e mesmo em pessoas que não fazem tolices com frequência, se não vigiarem os seus pensamentos, podem cometer tolices.

Algumas ações tolas caraterizam-se pela arrogância da autoconfiança. As coisas são por demais evidentes que são inegáveis. Claramente que é o Sol que tem de girar à volta da Terra e que o planeta tem a forma plana que os meus olhos conseguem captar. O resto, são invenções de pessoas que nos querem impor um certo conhecimento do mundo, com algum motivo não muito claro.

Mas tudo é relativo, como alguém chegou a dizer. Uma contradição de termos na mesma frase, pois se é tudo, trata-se de um facto totalizante que coloca em causa a relatividade que defende. A frase no início deste parágrafo é exemplo de um selo de autoridade, presente em qualquer argumento que por si só não seja tão evidente quanto se pretenda crer e que serve de justificação ao que foi dito. Estes selos de autoridade são símbolo da atitude acrítica com que recebemos a informação que nos é transmitida.

A informação que recebemos é automaticamente recebida e percebida como uma verdade por si só. Recebemos informação sobre estatísticas sem verificar quais os dados que fundamentam as conclusões tiradas. Por exemplo, imaginemos que estatísticas confirmam que 50% estão de acordo com uma determinada proposta. 50% pode ser considerado um resultado interessante, exceto se o número de pessoas entrevistadas se resumirem apenas a 2 elementos, no qual cada um disse que era a favor e outro afirmou ser contra.

Para os que não estão e não querem ser cegos (na aceção de Saramago), existem algumas ferramentas que permitem minimizar ações tolas ou circunscrever os efeitos de tolices alheias. Se um dos grandes erros do tolo é a arrogância da autoconfiança, a humildade de reconhecer que desconhecemos mais do que conhecemos é um bom ponto de partida.

Quando reconheço que não sou um especialista, apenas porque vi alguns vídeos ou umas citações, e que um mesmo objeto pode ser visto de diversos pontos de vista, estou em condições de dialogar com o Outro; perceber o seu ponto de vista e, se realmente o meu ponto de vista está incorreto, mudar a minha opinião. Uma pessoa que nunca muda de opinião pode indiciar uma tolice latente.

Partindo do pressuposto de que qualquer pessoa, independentemente da condição social e nível de escolaridade ou experiência, pode cometer uma tolice; que humildemente reconhece que não encerra em si todo o conhecimento, então está pronto para o passo seguinte: analisar criticamente os argumentos do oponente. Neste ponto há que fazer uma ressalva, tolo é aquele que pensa que pode discutir racionalmente com um tolo. Ninguém domina melhor o campo da tolice do que o tolo e insistir nesse debate não eleva o nível do tolo, antes nos faz descer ao nível dele.

Analisar criticamente um argumento não é avaliar o mesmo pelas minhas crenças pessoais. Há que analisar dados, ler e perceber qual a validade e extensão que o argumento tem. Ao fim e ao cabo, é como o trabalho do cientista. Partir das teorias existentes e, com uma nova argumentação apoiada em factos e dados concretos, criar uma nova teoria que substitua ou que confirme a anterior. Podemos não descobrir as leis da física novamente, mas podemos não cair nas falácias sobre cenários de subsídio-dependentes se acedermos aos dados da Segurança Social. Por outro lado, de modo a provar que a visão liberal da sociedade é melhor que a visão marxista, não basta inundar um debate com argumentos auto-evidentes da superioridade liberal. Tenho de conhecer tão bem a teoria marxista como se de um marxista tratasse e, partindo dos pressupostos deste, demonstrar porque é melhor a minha visão de sociedade.

Qualquer pessoa é um tolo em potência e, em si, não é um problema. O problema começa quando não refletimos sobre a informação e argumentos que recebemos; é problemático quando uso um selo de autoridade para encerrar o debate. É tolice quando, achando sermos donos do conhecimento, pensamos não ser necessário procurar outros pontos de vista, permanecendo em bolhas estéreis de argumentos tautológicos.

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(1) Com o intuito de minimizar sensibilidades alheias usarei o termo tolo daqui em diante, que, não obstante, partilhar do mesmo significado, é um bom eufemismo aos polícias do politicamente correto.

(2) Não me refiro exclusivamente ao género masculino, pois qualquer género pode cair em tolices

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