Girls just wanna have fun

Um amigo trintão disse-me: as pessoas a partir de certa idade não falam de sexo, pois não?

Falávamos pelo Messenger, o que me salvaguardou de revelar a minha cara de espanto que com certeza fiz. Mais que espanto, quase choque. Como?! O que é exactamente a partir de certa idade? Já inclui a minha?!

Isto de andar pelos meados da década de 40 é quase uma nova adolescência: não se é carne nem peixe. Somos velhos para os (mais) novos e novos para os (mais) velhos. Vistos como velhos excêntricos pelos mais novos, que não esperavam ver-nos em certas tonalidades, mas também como inconsequentes pelos (mais) velhos, que ainda não temos a sua sabedoria milenar.

Devo ter reagido de forma tão abesbílica (desde que tomei conhecimento desta palavra jurei que a usaria num artigo!), que terei abanado a cabeça vezes sem conta, sob risco de gerar uma qualquer disfunção esquelético-muscular, tão comum na minha provecta idade. O que me é dado a ver é tão, mas tão diferente! Isto não significa, esclareço desde já, que estejamos a falar de sexo de risco. Haverá com certeza, mas não necessariamente. Nesta idade (cá está!) já se deverão ter apreendido todas as regras de saúde sexual (espera-se!). Portanto, não se aplica o princípio de que o desconhecimento da lei, conforme informa o código civil, sirva de motivo de incumprimento das práticas.

Parece-me que mais importante que a idade, é o estado civil. Os casados, a sê-lo pelas boas razões, acredito que sejam mais discretos no assunto. Embora, naturalmente, a rotina dos dias e a falta de novidade, ainda que  se lute contra ela, torne o relacionamento sexual mais morno e monótono.. Mas há outras coisas, arrisco-me a dizê-lo, que talvez compensem.

Há, contudo, um ponto importante nisto tudo: a partir dos 40 anos e mais, há inúmera gente divorciada, ou como dizia uma prima minha, é o pleno mercado da reciclagem. Ou seja, dentro deste grupo, que já viveu relações algo longas que habitualmente geraram filhos, de repente veio uma ruptura. Seja qual for o motivo, por desinteresse crescente, afastamento, traição ou outros que tais, de repente estas pessoas vêem-se solteiras de novo, com tudo o de bom ou de menos bom que isso implica. Mas os divorciados, ou os solteiros inveterados, têm muito a contar. Sobretudo, pasme-se, as mulheres. Como? As mulheres? Sim e passo a explicar.

Já todos conhecemos um divorciado típico. Preocupação número 1: arranjar alguém, seja quem seja. Destaco: seja quem seja. Alguém que lhe devolva a sua autoestima, seja porque a Hermengarda o deixou, seja porque ele deixou a Felismina e ainda assim ela não se matou de desgosto. Que homem é ele, que abandona a mulher e ela, para cúmulo, fica ainda mais gira e mais nova? Ou que homem é ele, que é abandonado pela mulher e não precisa de imediato provar que o seu carisma (sexual) se mantêm firme e hirto (desculpem…). E o que dirão os colegas, os vizinhos, os primos, se ele não aparecer de imediato com uma Érica Marlene? É o caos, o horror. Está acabado e já ninguém lhe pega.

As mulheres, não. Regra geral, a primeira coisa que sentem é uma lufada de ar fresco, seja qual for o motivo da separação. Ganham vida, tempo com as amigas, voltam aos seus hábitos e gostos, tantas vezes abafados em anos de casamento. Saem com  amigos, falam com eles até altas horas da madrugada, sem ciúmes alheios, fitas e cobranças, servem-lhes conselhos com um café, brincam mais com os miúdos, vão a espetáculos, riem-se das palermices dos engatatões da internet e dos outros. A última das vontades, é arranjar um namorado no sentido do termo, pelo menos até se esquecerem dos contras, ou sobretudo, até que lhes apareça alguém que as deixe absolutamente rendidas, que as faça esquecer medos e razões, e as faz sentir que vale a pena a mudança. Tem que valer a pena a mudança. Até lá, saboreia-se a brisa.

Temos aqui uma clara inversão de expectativas. Os homens, que antes fugiam a compromissos, querem desesperadamente alguém. Excepto aqueles que, de tão martirizados com o tema, têm um medo profundo da entrega e se sujeitam a um celibato autoimposto. Estes são uma raridade, e o extremo oposto do divorciado comum, mas existem. As mulheres, em contrapartida, que já realizaram os seus desejos de casamento e maternidade, agora pensam muito mais em si próprias e na sua individualidade. Individualidade que se basta. Sem homens  traumatizados com as exs, sem problemas com o facto de elas ganharem mais, sem receio de os humilhar com a sua capacidade intelectual, enfim, sem tudo aquilo que até aqui lhes pesou na felicidade.

E os homens ficam confusos. Quando finalmente aceitam, ao fim de alguns anos de evidência que as mulheres querem casar e ter filhos (algumas das quais ao primeiro olá…), elas viram o jogo e agora é que nem pensar nessa coisa de voltar a formar família. Não será fácil, calculo.

Confesso que às vezes tenho pena dos homens, porque eles boicotam-se a si próprios, como se estas coisas dos relacionamentos já não fossem difíceis. A vida de um recém-divorciado obcecado é comparável a ir ao supermercado quando se tem fome: mete-se tudo no carrinho das compras, sem qualquer critério, e a tender para o pouco saudável. Quando chegam a casa, passada a euforia, é que se apercebem que os produtos estão fora de prazo, ou estão danificados, mas era tanta a urgência… Já as mulheres, porque não têm fome ( leia-se desespero), fazem uma escolha mais criteriosa, mais saudável, mais ao encontro do que apreciam ou precisam. Mais demorada, sim, mais cautelosa, não levam o primeiro produto que lhes aparece em promoção, se é que me entendem…

Os homens às vezes parece que se põem em leilão, mas no medo de que não haja uma segunda licitação, ficam logo com a primeira oferta. As mulheres são mais contidas. Se aquele jeitoso que têm debaixo de olho não lhes dá a atenção desejada, isso não significa que se fiquem pela 2ª opção, ou 3a ou 4a…. Seguem sozinhas, que nisto mais vale só que mal acompanhado.

Então e onde entra o sexo nisto tudo, afinal?

Os homens precisam de alguém, de imediato, já, seja quem seja, para sexo, mas sobretudo para manter a sua imagem de homem macho e desejável.

As mulheres, sem o aperto dessa necessidade de prova social, podem dar-se ao luxo de não ter ninguém, ou como mais comumente me tem sido dado a ver, terem de forma mais liberal. Sem a urgência  ou pressão de refazer um ninho desfeito, saboreiam os tempos da liberdade, sem que isso signifique necessariamente ausência de sexo. É alias, comum, que as mulheres, que hoje até ganham frequentemente mais do que os homens, têm mais formação, sustentam-se autonomamente, queiram um parceiro para passeios, saídas e sexo, mas no pressuposto de que mi casa es mi casa, tu casa es tu casa. Nada de discussões de amortizações de empréstimos, ou planos de reforma a dois.

Ando aqui a dar a volta ao texto para me escapar à analogia do porco e salsicha, que eu sou uma senhora. Aliás, mais do que uma senhora, sou DIVA. Não, não é mania das grandezas, é apenas um tratamento carinhoso que usamos entre amigas, quando nos referimos ao facto de alguém ser DIVorciadADIVA.

Portanto, fazendo uso da subtileza, as mulheres só estão disponíveis para uma compra completa, se o artigo for de qualidade, e aqui falamos de relação completa, companheirismo, amizade, sexo. De contrário, porquê levar o pack todo da maquilhagem, quando só querem mesmo é usar o rímel e, eventualmente, uma ou outra sombra?

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