O marido estava cheio de silêncio

O marido estava cheio de silêncio. Transbordava dele. Quando se sentava na poltrona, o silêncio escorria pelo chão de madeira da casa e tocava nos pés da mulher. Encharcava-lhe os sapatos e as meias, ela sentia a humidade do silêncio do marido entre os dedos dos pés. Às vezes chegava-lhe aos joelhos. Às vezes ao peito. Mas nunca a cobria. Nunca afogava todas as palavras que ela tinha dentro. Palavras que também tinham coisas dentro: voz, sentido, intenção, distância. Palavras matrioskas.

Quando se sentia sufocar, atravessava o silêncio do marido. Às vezes tinha de nadar. Aproximava-se, agarrava-lhe no ombro e falava na direcção dele. A boca dela era um titereiro, mexia as palavras como marionetas. O marido olhava. Mas o marido não entendia de teatros.

Todas as noites, deitava-se à superfície da solidão e esperava que o sabor amargo do comprimido se espalhasse pela língua, pelo céu da boca, pela garganta, por todos os lugares em que as palavras tocavam quando se precipitavam para fora dela. Manchava esses lugares, envenenava-os, queria-os inférteis. Só assim o silêncio conseguiria rastejar por ela. Devagar. Devagar. Devagar. Até ela se sentir feita de chuva.

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Onward (2020) – Crítica

Comments 1
  1. Rosa Machado, extraordinária escritora de uma criatividade poderosa e sem limites.
    São fantásticas as viagens que com ela fazemos ao interior da mente e emoções.
    Adoro ler as suas histórias.
    Obrigado ao Repórter Sombra por possibilitar estas leituras.
    Cristina Brito

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