A soma de mim mesma

Ainda hoje falei em ti. E, sem querer, lembrei-me das conversas que tínhamos. Sobre as pessoas. Sobre as relações que temos com elas. Sobre como achavas que tínhamos que as colocar em certos lugares nas prateleiras, arrumá-las como quem arruma livros por temas e cores. Encaixá-las na vida em perfeita ordem.

Na época, isso fazia-me confusão. Olhava todos na mesma forma e medida, de tudo e por tudo procurava um lado bom em todos os que se cruzassem no meu caminho.

Depois magoava-me. Deixava-me ficar em lamurias e outros sentidos, não antevia o que de caras estava por vir. “No fundo não é má pessoa”, dizia-te e tu, em inspiração com quem mais uma vez te abria o coração, lembravas-me: “atenta aos lugares nas prateleiras”.

Estas conversas já passaram há longo tempo mas nunca mais me esqueci delas e hoje entendo da mesma forma, não existem más pessoas, mas nem todos estamos em sintonia, nem todos queremos o mesmo e todos, sem excepção, mudamos ao longo do caminho.

Encontramo-nos em tantos encontros, damos uns aos outros aquilo que temos para dar. Muitas vezes em pequeníssimas porções de um só dia. Outras vezes, por uma vida inteira e, em certos momentos, desencontrados uns dos outros.

Damos sempre a relação que temos connosco próprios. Não gostamos de todos da mesma maneira e temos de aceitar que nem sempre gostam de nós. Na maior parte das vezes, vêm em nós a construção de um mundo que não é o nosso mas é deles.

Existem também os que devido à vida não estão sempre presentes mas para sempre estaremos conectados, de formas que nem numa vida inteira poderia descrever.

Afinal, as pessoas são como os livros: completas, cheias de histórias, mundos inteiros por desbravar. Sem olhar a gostos, são cheias de magia, energia, alquimia perfeita quando se junta à nossa, ainda que em incompatibilidade. Com elas se formam histórias e se criam trocas e aprendizagens que nos empurram em frente, incluindo as mais dolorosas.

No fundo, todos juntos, somos um imenso e intrincado puzzle, que em certo espaço e tempo nos uniremos para criar o mais belo desenho de todos.

Hoje falei em ti. Já tenho as prateleiras arrumadas. Tens o teu lugar especial numa delas. Tenho também uns quantos lugares vazios, para preencher com todos aqueles que estão por vir, os que se importam, os que não querem saber, os que serão os mestres do meu tempo e lugar.

Percebi, finalmente, o que tanto me querias dizer e eu não percebia. Todos os lugares, arrumados, caóticos e abstractos, perfazem no seu total um todo: a soma de mim mesma.

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