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O meu nome não é Sofia ou A Falácia da Monogamia

Olá. O meu nome não é Sofia e eu sou poliamorosa.

Não sou uma extraterrestre, não sou uma pervertida ou tarada sexual. Sou só alguém que, como provavelmente a maior parte das outras pessoas, ama mais do que uma pessoa mas, ao contrário da maior parte das outras pessoas, vive várias relações afectivas e sexuais com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos. Está dito. De seguida, vou explicar um pouco mais. Vamos por partes.

Poliquê?

O poliamor é uma das formas relacionais que se enquadram na não monogamia ética e distingue-se por existirem sentimentos românticos por mais do que uma pessoa em simultâneo. Uma imensa panóplia de outros formatos existem, desde as relações abertas à anarquia relacional. A diversidade é tanta que se torna complexo atribuir definições estanques e rótulos. O ponto fulcral de todas as não monogamias éticas é o desejo de manter relações afectivas ou sexuais com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, em que existe consentimento de todas as partes. Podem existir parceiros preferenciais numa hierarquia clara, ou não, parceiros ocasionais, tríades, diferentes graus de envolvimento emocional, com ou sem co-habitação, com ou sem co-parentalidade.

O meu percurso

Durante muito tempo achei que era monógama. Não conseguia conceber que tivesse espaço emocional para mais do que um Amor profundo, denso, absorvente, ou acreditava que pelo menos um seria sempre mais importante, mais bonito, mais pesado e, em comparação, a existirem sentimentos por outra pessoa, não podia ser amor, pelo que teria de fazer uma escolha e manter-me fiel ao “amor verdadeiro”. Quer dizer, não concebia isto especificamente para mim, já sabia o que era o poliamor, já apoiava desde sempre todos os formatos de relações abertas e de não monogamia ética, mas apesar do interesse político e social que me despertava, não me via a mim em tal situação. Até que aconteceu. De repente e sem pré-aviso, entrou na minha vida alguém que me abalou uma série de certezas, que me suscitou sentimentos muito fortes e impossíveis de ignorar, e isto sem colocar em causa ou alterar os sentimentos que existiam pela pessoa com quem já mantinha uma sólida relação íntima, a quem nunca escondi rigorosamente nada em nenhum ponto e que, sendo a pessoa absolutamente extraordinária que é, apoiou que explorasse livremente os meus sentimentos e desejos, num processo cheio de dificuldades e complicações particulares que superámos e com o qual aprendemos e crescemos muitíssimo.

Ao longo das contínuas incursões analíticas de auto-conhecimento, fui percebendo que já me tinham surgido vários outros interesses amorosos que não os meus parceiros durante o curso de todas as relações em que tinha estado, e que sempre tinha reprimido esses interesses, cortando qualquer hipótese de aprofundar o conhecimento da outra pessoa, porque isso se afigurava como um “risco”, um potencial atentado contra a estabilidade da relação. Tinha condicionado a minha liberdade sentimental a escolhas sucessivas, porque estava profundamente convencida que apenas uma pessoa poderia merecer o meu amor, todo o meu amor, como se de um recurso finito e escasso se tratasse.

Percebi finalmente o quão ridículo era deixar passar a oportunidade de deixar entrar na vida pessoas fantásticas, com o potencial de se tornarem muito importantes, por receio de gostar delas e, ao mesmo tempo, depositar toda a pressão de encontrar em todos os momentos o que se necessita de dar e extrair de uma relação emocional em apenas um outro ser humano, com personalidade, gostos e ritmos próprios, com falhas, erros e momentos complicados, e toda a miríade de particularidades individuais que têm direito a existir muito para além, e por vezes em contradição, da esfera da relação entre duas pessoas. Percebi que não só os modelos relacionais não-monógamos fazem muito mais sentido, como as próprias relações, cada uma delas, se torna muito mais saudável, com expectativas mais realistas, com comunicação mais fluida, com mais partilha e, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, muito mais segurança. Percebi enfim que, tendo percebido tudo isto, não havia a menor hipótese de voltar a conceber plausível para mim a monogamia, que agora se afigura como restritiva e desadequada.

Como se gere?

Na não monogamia ética todas as relações (emocionais e/ou sexuais) são consentidas entre todos e existe um grau variável de liberdade para explorar afectos e desejos com outras pessoas. Isto é ponto assente. Depois, cada relação tem as suas dinâmicas, regras e hábitos próprios, que os intervenientes vão construindo e desconstruindo, ajustando, desejavelmente na óptica da confiança e transparência e com muita comunicação. Os formatos são múltiplos, não existem conceitos de relações “certos” ou “errados”. Há relações abertas (em que os intervenientes têm liberdade de explorar outros interesses afectivos ou apenas sexuais), há relações poliamorosas (em que as ligações implicam um envolvimento sentimental), podem existir relações com hierarquia distinta (com parceiros primários distintos dos secundários), ou no caso da anarquia relacional, sem regras estanques, e mais uma panóplia de variações. Há quem faça “contratos” ou estabeleça regras vinculativas e há quem vá acordando e decidindo o que é melhor e mais confortável para todos à medida que as situações e desafios surgem. As pessoas e as relações não são estanques, evoluem e adaptam-se. E acontecem problemas, crises, zangas e rompimentos, bem como fases excelentes e momentos fabulosos, como em todas as relações.

E o ciúme?

Na minha perspectiva, o ciúme é apenas um reflexo da insegurança ou do desajuste de expectativas. Não posso dizer que nas relações não monógamas não há ciúme. É claro que pode haver, porque a insegurança pessoal não se ultrapassa com passes de mágica, mas é vivido de outra forma. A comunicação aberta e constante é um imperativo, pelo que o cenário mais provável é que as pessoas inseguras deixem claras as suas inseguranças ou expectativas frustradas, e os seus parceiros façam o melhor que sabem e podem para as aplacar. Além disso, o mindset de uma pessoa não monógama é, à partida, capaz de resolver grande parte do problema na sua génese. A liberdade é a maior prova de amor. Se temos e damos aos nossos parceiros liberdade para estar com quem escolhermos, sem amarras ou condições, sabemos que quem está connosco só está porque quer e enquanto quer, e não para manter uma promessa ou contrato de fidelidade exclusiva.

O próprio oposto do ciúme é sentido frequentemente pelos poliamorosos. Chama-se compersão à alegria e felicidade que se sente quando um dos nossos parceiros encontra uma nova pessoa que o faça feliz – e não, asseguro que não é um mito.

Porque é que a monogamia é a norma?

A monogamia é o tipo de relação exclusiva (normalmente, em termos emocionais, sexuais, estruturais e sociais) entre duas pessoas. É a norma cultural vigente, dado que a presunção implantada colectivamente é a de que a relação romântica ocorre apenas entre duas pessoas. O conceito de monogamia está intrinsecamente ligado ao conceito de propriedade privada – e mais concretamente à ideia de, numa relação heterossexual, a mulher ser propriedade privada do homem. Na família monogâmica patriarcal, surgida com o advento da agricultura e do sedentarismo das populações, o homem é o centro do poder e tem um direito inquestionado de “ser infiel” (nos machos a líbido é apenas uma manifestação de virilidade, como é sabido), mas uma vez que precisa de garantir que os seus herdeiros são filhos legítimos, a mulher não aufere do mesmo direito. A (o)pressão acrescida que se atribui às mulheres verifica-se em todo um código de conduta subentendido que as obriga à monogamia e à fidelidade. Uma transgressão da mulher ao elo do matrimónio monógamo é, ainda hoje, vista como “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”, citando o célebre – pelos piores motivos – acórdão do juiz Neto de Moura.

Como resultado desta opressão histórica propagada de forma quase universal, e reforçada pelo clero, as normas sociais vigentes impõem sobre o amor romântico uma série de regras e mitos sem fundamentos plausíveis.

A mononormatividade é incutida e reforçada socialmente de forma transversal. A ideia de que só se ama uma pessoa, de cada vez ou na vida toda, que quando se encontra “aquele alguém especial” se sabe, porque esse amor é tão único e irrepetível que só há um cartucho para gastar durante toda a vida, a noção de que ter sentimentos por outra pessoa além do parceiro já existente é uma espécie de falha ou poluição que invalida a veracidade do amor, está presente em todas as facetas da vida no mundo actual. Está presente nas narrativas romantizadas do amor idílico em filmes, romances e demais ficções em que os triângulos amorosos e outras alterntivas à ideia de amor perfeito único são apresentadas como obstáculo a superar, dilema a resolver. Está presente em toda a lógica dos mercados orientados para a vida a dois, em casal (e, já agora, em casal heterossexual e binário). Está presente na religião, na lei, na justiça, e está presente nos casamentos e ainda em grande parte das famílias divididas.

Quantas relações monógamas actuais são destruídas porque alguém sente interesse, atracção, amor por outro alguém e o reprime, causando desconfortos e desequilíbrios em si e na dinâmica relacional, ou persegue um novo interesse de forma escondida, sem assumir a verdade perante a relação já existente, como se a atracção ou o amor fossem algo de feio, sujo ou ilícito? Onde está escrito que só se pode ter uma relação, um amor, um companheiro?

Curiosamente, muito pouca gente parece parar para questionar esta ideia tosca e tão pouco sensata do amor romântico único. Em mais nenhuma relação emocional a sociedade interfere de forma a limitar a um o objecto de afecto. Não tem cabimento para ninguém obrigar as pessoas a escolher apenas um filho para amar, apenas um irmão, ou o pai ou a mãe, que os dois é demais. Ninguém fica boquiaberto perante o facto de alguém ter mais do que um(a) amigo(a) com quem gosta de passar tempo. O moralismo pequeno-burguês marca a natureza distinta das relações pela presença de intimidade carnal. Novamente, é a ideia fundada nas raízes da cultura judaico-cristã e reforçada pelo feudalismo de que o sexo é uma coisa pecaminosa (sobretudo para as fêmeas, já sabemos) a destrinçar o que é aceitável do que é um atentado aos bons costumes.

A monogamia enquanto norma social é, assim, uma opressão difícil de contornar.

Falar da não monogamia a pessoas monógamas

Não é fácil assumir e viver publicamente sem vínculos às expectativas do que é a norma social. O que existe em contra-regra é olhado como estranho, como anormal, é caricaturado e conotado com uma série de ideias pré-concebidas sem qualquer fundamento. No caso das não monogamias, a desinformação abunda e a desconfiança e o preconceito também. Falar da não monogamia a pessoas monógamas é um desafio e muitas vezes torna-se frustrante. Dizer e viver a verdade parece ser mais estranho do que encobrir com mentiras que tornam tudo muito mais normalizado. Na sociedade actual, em que o adultério é perfeitamente normalizado e até, em certa medida, expectável porque não só não questiona a norma da monogamia, como a reforça e reproduz, são as vivências amorosas e sexuais múltiplas com consentimento de todas as partes que são percepcionadas como transgressões sociais e morais. É curioso, não é, que a transparência e a verdade sejam consideradas imorais, mas que as opressões, mentiras e traições sejam corriqueiras e banalizadas?

Fazer uma saída do armário (“coming out”) pode ou não fazer sentido, consoante o contexto social e familiar, a personalidade e estrutura mental e emocional de cada pessoa. Não estando a fazer nada de errado ou que seja motivo de vergonha, pode ser esquisito fazer esforços para esconder o modo de vida; contudo, assumir perante o mundo formatado para a visão oposta e informar inusitadamente os outros pode também significar abrir a porta a preconceitos, a incompreensão, a tensões e a lutas que, muito francamente, podem aportar muito pouco além de desgaste emocional e turbulências desnecessárias.

Não pretendo fazer a apologia da não monogamia ética versus a ridicularização da monogamia. Não há certos ou errados no que diz respeito às relações pessoais íntimas. Cada qual sabe de si e o que funciona bem para uns não tem de funcionar para outros. Pretendo, sim, desmistificar as construções fictícias em torno da monogamia como modelo desejável, recomendável e caminho único para a felicidade amorosa. Pretendo, sim, fazer a apologia da liberdade, da aceitação, da tolerância. Acima de tudo, quero evidenciar aquilo que toda a gente, no fundo, já sabe. O amor não é um bem precioso que se deva guardar num cofre e dar a um receptor único. O amor é infinito, é plural, contagioso. O amor não se divide, multiplica-se.

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Andreia

Anticapitalista. Ecossocialista. Feminista. Opinativa. Palavrosa. Blogger desde 2005 em https://ventania.blogs.sapo.pt/.

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