Os velhotes? Esses sabem ser felizes!

Nesta semana voltei a um hábito que havia perdido que é ser frequentadora dos transportes públicos. Muito mudou desde o tempo em que os batia a toda a hora e na verdade para melhor. O facto dos preços serem mais acessíveis leva a que certas pessoas aproveitem a janela de oportunidade e saiam de casa. É o caso dos mais idosos que assim arejam os corpos e as mentes.

Viajar nestes carros grandes é sempre uma vantagem. Abre a mente para o que se passa mesmo ao lado e que costuma passar despercebido. Na verdade, faz bem à alma e ginástica o coração. Há tanta vida maravilhosa que nos faz entender como somos apenas poeira insignificante, mas, ao mesmo tempo, poderosa. Incompatível? Nem por isso.

Ontem entraram dois velhotes e sentaram-se onde havia lugar. Ela primeiro, que ele teve esse cuidado, seguindo-se ele, no banco mais afastado. Contudo esteve sempre de olho atento para a senhora. Vagou um lugar ao lado dele e chamou-a. Ela levantou-se, apoiada na mão dele e sentou-se ao seu lado. Não largaram as mãos. Não sei que idade teriam, mas certamente mais de 80 anos. Uma delícia para a vista e para aquele botão que faz chorar.

Saíram na mesma paragem que eu e entraram no comboio. Não resisti e fiquei como se fosse a sombra deste par tão interessante. Quando o comboio chegou ajudou-a a subir e só depois de ela estar sentada ele se sentou. Um verdadeiro cavalheiro que deve ter sido o tal cavaleiro andante da bela donzela com quem casou. Eu aproveito e invento logo histórias.

Falavam baixinho e tratavam-se por “meu Amor” e “minha Querida“. Ela, de olhos enormes e fascinantes, ainda o conseguia encantar. Ele, de cabelo branco farto e penteado com estilo, era o anjo da guarda daquela mulher bem-afortunada. Havia ali muito energia positiva e muito amor para dar. Sorte minha que tive a possibilidade de os conhecer.

Fiquei a pensar em como as relações humanas são complicadas e difíceis de entender. Afinal é tudo tão simples como dar a mão e seguir em frente na vida.  Como se terão conhecido aqueles velhotes? Continuavam juntos. Emanavam felicidade. Certamente que terão tido desavenças, que a perfeição é um pôr do sol e acaba depressa, mas tiveram a sapiência e a sagacidade para lhes encontrar soluções.

Hoje em dia, vivemos numa sociedade de consumo, de usar e deitar fora. Como se pode ignorar alguém com quem se teve algo de importante? É certo e sabido que os sentimentos mudam, que o amor se pode esgotar e que outros amores possam surgir. Entendo. O que me faz confusão é o esquecimento que certas pessoas sofrem. Particularmente os casais que se separam e que usam os filhos como aríete. Não compreendo de todo.

E regresso aos meus velhinhos. Imagino-os novos e frescos, cheios de sangue na guelra e afoitos como nenhuns. Aventuram-se no amor como se esse fosse um sentimento que se aprendesse com facilidade. É necessário ser cuidado, regado com delicadeza e guardado em cofre com código especial. A educação sentimental é tão importante! Somos sempre seres pequeninos que buscam um porto de abrigo e o amor é tão potente que sabe albergar.

Recordo como estamos perdidos e ignorantes. Diria mais: somos analfabetos emocionais. Não percebem? Basta dar uma vista de olhos pelos títulos dos jornais e a luz acende-se. “Marido mata mulher com requintes de malvadez”, “Mulher encena morte de marido para se ilibar”, “Criança raptada pelo pai”, “Criança morre afogada enquanto pais estavam em festa” e tantos outros. Será que soubemos crescer sentimentalmente ou ainda nem chegámos ao pré-escolar?

E sem querer sinto uma certa inveja do par amoroso que acompanhei ontem. Talvez tenha a oportunidade de os voltar a ver hoje. Quem sabe? Não é que acredite em príncipes encantados nem em fadas, mas o certo é os sapos e as bruxas más, daquelas mesmo carregadas de verrugas e maçãs cheias de veneno, são o pão nosso de cada dia e a cada mordida injectam cada vez mais raivas, ódios e outras coisinhas que fazem mal à pele e sobretudo ao coração.

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