Jesus Christ Superstar

Este filme, rodado em 1973, tinha tanto de inovador como de provocador. Foi a sequência natural do êxito do musical, com o mesmo nome, que era comentado como uma lufada de ar fresco. Numa época de mentes ainda muito fechadas e retrógradas, deu uma enorme abertura à religião e conseguiu cativar mais crentes do que um sermão bem elaborado.

Esta foi uma forma original de contar os últimos dias de Jesus Cristo, dos seus discípulos, dos seus seguidores e crentes e onde a sua ligação com Maria Madalena era natural. As autoridades vigiavam-no com receio de perderem o seu domínio e tentavam conseguir elementos que lhes dessem razão.

Encontramos aqui um homem dividido, mostrando as suas fraquezas e mergulhado nos seus pensamentos e nas mais profundas incongruências. Um comportamento igual a qualquer pessoa vulgar e pensante. Maria Madalena admira-se de conseguir sentir, de ser humana, de estar apaixonada e Judas, depois de se remoer e interrogar, arrepende-se das atitudes tomadas. Um filme repleto de amor e genialidade.

A coreografia é extraordinária. Os bailarinos e bailarinas multiplicam-se em movimento ondulantes que recordam sonhos e pesadelos. Uma ambiguidade fantástica. O guarda-roupa é deslumbrante e absolutamente livre. Tudo sem censuras nem restrições e mostrado tal como é, sem falsos moralismos.

Curioso o início do filme, quando os actores e toda a equipa chega de autocarro e começam a montar o cenário. Existe uma enorme entreajuda entre todos, uma interacção que funciona e uma afinação de conteúdos que redunda num espectáculo que enche o olho e o ouvido. A banda sonora é de enorme qualidade e não se perde na poeira do tempo. Quem nunca cantou uma canção deste filme não sabe o que é alegria.

Os detalhes não ficaram descurados e por isso mesmo o cenário natural corresponde ao da vida do próprio Jesus Cristo, o que obrigou a cuidados redobrados com todos os intervenientes devido ao calor. Uma produção de baixo custo, mas funcional. Todos os actores foram unânimes em afirmar que este filme foi um marco nas suas vidas.

De salientar o facto de provar que o ser humano, as ditas pessoas, são volúveis como o vento e viram-se conforme o que mais lhes agrada. O que importava era estar no centro do mediatismo, mas quando o herói tomba, os fúteis e miseráveis, viram-lhe as costas como se nunca o tivessem conhecido e apoiado. Um verdadeiro golpe político.

Estávamos no ano de 1973 e havia liberdade para fazer um filme que mostrava um líder religioso frágil e dividido, uma pessoa que, mesmo sendo vista como um dirigente, sabia estar ao lado de todos. Sem qualquer tipo censura nem os “ai, ai, ais” que agora estão muito na moda.

Se repararem com atenção, todas as personagens que mostradas, em modo cinéfilo exuberante, são todas inclusivas, para usar uma palavra que vai muito bem e que se encaixa na linguagem dos nossos dias.

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