“Pai, perdoa-lhes pois não sabem o que fazem.”

A forma mais rápida e eficaz de travar a insustentabilidade financeira da Segurança Social é aumentar a idade da reforma para 69 anos – sentenciou um estudo.

O alarido instalou-se, o boato incendiou-se e rapidamente a notícia passou a ser “Governo vai aumentar a idade de reforma para 69 anos”. Um pé de vento e todo um Carnaval de memes nas redes sociais. Alguns bem castiços, por acaso.

Honestamente, não percebi tanto sururu à conta disto: um estudo diz que deveríamos trabalhar até aos 69 anos, mas há outro que refere que a probabilidade de morrermos de cancro aos 50 é de 40%, um outro afirma que há 30% de hipótese de sofrermos um AVC antes dos 45, há ainda um que sentencia 25% de chances de sofrermos de um qualquer doença degenerativa e autoimune, depois dos 30, e ainda sobram 5% que podem ser divididos entre acidentes de viação e coma alcoólico na faixa dos 20. A probabilidade de chegarmos com vida as 69 anos é praticamente nula, mais vale preocuparmo-nos já com o valor exorbitante das urnas em 2029 do que as mantas polares em 2058.

Como é lógico, o estudo não passou disso mesmo. Ninguém lhe passou via verde argumentando que “aumentar a idade da reforma para os 69 anos não é exequível nem eficaz” e eu fiquei de olhos marejados: emociono-me sempre, quando conseguem constatar o óbvio.

Depois disto, em apenas 48 horas depois das labaredas, Notre Dame arrecada cerca de 600 milhões de euros em doações para a sua reconstrução. E o povo esquece a idade da reforma aos 69, o cancro aos 50, o AVC aos 45, as doenças autoimunes e degenerativas aos 30, os acidentes de viação e comas alcoólicos dos 20, passando a lembrar a existência de TODA a miséria, pobreza e fome que há no mundo. O meme dos velhinhos de bengala e andarilho, atrasados para o emprego, foi substituído pela montagem da catedral em chamas comparada a três meninos grávidos de fome. Não percebi muito bem a comparação, até porque a catedral ainda tem alguma coisa para reconstruir, já os miúdos, o mais certo, é que já tenham deixado de o ser há um bom tempo. Como sempre, a Síria foi esquecida nesta comparação de desgraças – pelo menos no meu feed –, mas já se sabe que aquilo é lá entre eles, que se matam uns aos outros, não temos nada a ver com isso.

Entretanto, os motoristas de matérias perigosas pararam e o caos instalou-se. Esqueceram-se as reformas aos 69 anos, o cancro aos 50, o AVC aos 45, as doenças autoimunes e degenerativas aos 30, os acidentes de viação e comas alcoólicos dos 20, o incêndio de Notre Dame e os 600 milhões doados para a sua reconstrução, bem como a fome, a pobreza e a miséria que corre o mundo e os meninos que podiam não morrer de fome, se não fossemos todos tão egoístas. O apocalipse foi declarado e, em vez de corrermos a armazenar enlatados, rumamos em êxodo às gasolineiras e, tal como numa herança, correram todos a buscar o seu quinhão de combustível. Podemos não chegar aos 69 anos, mas o depósito a nadar em combustível ninguém nos tira. Isso é que era bom!

Depois vem a Páscoa, com a habitual reflexão sobre a vida, os pecados, a perseverança e a fé. Traz consigo a ressurreição de Cristo, que, segundo reza a lenda, morreu por todos nós, para limpar todos os nossos pecados e conceder-nos livre trânsito ao paraíso.

Uma pena, quando se morre em vão, não é?

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