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Crónicas

Férias em lugares comuns

Os dias vão correndo ansiosos, no desejo da evasão.

Acredito mesmo que as férias começam, na nossa cabeça, quando começamos a dar por nós a imaginar-nos a por o pé na areia da praia ou no rio gelado do campo, sabendo que dentro em breve será concretizado. O próprio acto de fazer as malas, aborrecido q.b. porque muitas vezes implica tratar roupa que não mexemos há muito ou fazer listas para não esquecermos nada, o que não acontece nunca, ganha um contorno prazeroso, porque é uma certeza dum paraíso prometido. E aqui começam as diferenças entre os seres masculinos e femininos.

Enquanto os homens, aqueles que já ganharam autonomia e maturidade que lhes permita fazer a própria mala, atiram para dentro desta umas quantas t-shirts, calções e pouco mais, que férias é sinónimo de conforto e simplificação, as mulheres fazem um inventário das situações esperadas mas também das eventuais surpresas, como um batizado de última hora ou um jantar com aquela prima que nos olha sempre pronta a desdenhar da nossa roupa excessivamente simples. Assim, entre t-shirts, calções, vestidos e chinelos de dedo, há sempre lugar a um vestido chique e umas sandálias de cerimónia, e a conjuntos de brincos e colares condizentes, que  sabe-se lá o que pode aparecer e não nos apanham desprevenidas.

É também nesta altura que as mulheres acham que vão ter tempo para usar todos os cremes de beleza que vão acumulando em casa. Terão tempo, com certeza, mas já a paciência, talvez fique guardada junto às sandálias de cerimónia e não veja a luz. Recordo que em tempos, ao ir de férias com o meu namorado da altura, este se queixou do tamanho da minha mala, ao que lhe respondi que mais valia ir de férias com a Patrícia, aquela colega eternamente apaixonada por ele, que não praticava a depilação, nem outros cuidados corporais, pelo que deveria ter muito pouco a transportar. Nunca mais se queixou. Parece que as mulheres não usam quase nada do que levam, o que me parece uma opção inteligente: menos trabalho no regresso, basta voltar a por a roupa não usada nas gavetas, que no próximo ano é que vai ser. Já os homens usufruem da modernidade da barba, o que lhes permite livrar-se dessa tortura por uns dias…

E quando se fala em preparação da viagem, fala-se também da viagem propriamente dita. As mulheres, habitualmente jogam mais pelo seguro, planeiam o caminho, e se for umas ferias de cultura, planeiam os locais a visitar, com horários estudados, deslocações e a rigidez habitual de quem não confia no acaso. Já os homens mal sabem o nome do local para onde vão, mas obviamente que sabem o caminho, e planear, pesquisar, ou pior, perguntar, é algo que não lhes é intrínseco, ou perderiam parte da sua masculinidade (ou macheza). Nem pensar, haveremos de chegar, nem que seja no dia seguinte, que estamos de férias e não temos pressa.

E lá chegam ao local. As mulheres deixaram o biquíni e a toalha no topo da mala, para poderem seguir directamente para a piscina ou praia. Os homens revolvem a mala, porque o calção de banho foi precisamente o que se lembraram como indispensável e foi o que ficou no fundo. Também não importa que a mala fique desarrumada, porque os calções e as t-shirts são facilmente conjugáveis, mesmo tiradas ao acaso e às escuras para não acordar ninguém. E não correm o risco de não combinar com a bandana comprada propositadamente para aquela indumentária.

E lá entram na água, entre pulinhos de frio e sorrisinhos envergonhados com os veraneantes solidários nessa aventura que é entrar no mar frio. Falo das mulheres, claro, que os homens já mergulharam de imediato, que outra coisa não seria possível, ia agora passar por miudinho e sensível. Mas o melhor mesmo é quando saem da agua. Os homens ajeitam os calções para confirmar que lá permanece o que lá antes existia, as mulheres, porque têm certeza do que têm no biquíni, seguram-no com firmeza, não vá vir à luz algo que não era suposto, no embate com uma onda mais desgovernada. Isto dá muito que pensar… os homens acham-se sempre uns figurões, desfilam pela praia, peito e barriga inchados, de orgulho e  de cerveja,  carecas, mas acham-se uns sedutores natos. As mulheres , mesmo na sua maior elegância corporal, encolhem-se na vergonha das suas perfeitas imperfeições, que nunca se é magra, sem celulite ou gira demais. Todos iguais, todos diferentes.

Nesta altura também, como no ano novo, todos fazemos votos de ler mais. Mesmo aqui, entre aqueles que praticam este gosto excêntrico, as diferenças se denotam. Enquanto um homem leva poucos livros mas os lê todos, no sossego da espreguiçadeira, as mulheres, sobretudo as que têm filhos pequenos, são umas optimistas e levam vários, mas não chegam a ler quase nenhum. Ou leem, quando se trancam na casa de banho sob o argumento de que estão indispostas e naqueles dias, e portanto têm uns momentos de solitude, que ninguém se atreve a contrariar uma mulher em tensão pré-menstrual ou pós menstrual, ou enfim, em qualquer dia do mês em que o mau feitio assole ( não confundir com ass-hole!). Ainda assim com uma música de fundo: mãe, mãe, ó mãaaaaeeeee que parece estar mesmo atrás da porta.

Estas diferenças entre homens e mulheres já se notam entre os adolescentes… enquanto as meninas passeiam, vaidosas de si, e querem conhecer gente, os rapazotes maldizem os dias afastados da sua tecnologia, impedidos de jogar e manter uma vida on-line, nesse horror que é a praia e a piscina, ansiando pelo regresso ao lar e ao comando das playstations que a malvada da mãe não deixou trazer.

E assim se passam as férias, entre o olhar de esguelha, por detrás dos óculos do sol para apreciar as beldades, as jantaradas, as fotos para as redes sociais e o ar de felicidade total. É preciso é descontração e sentido de humor para enfrentar as diferenças.  Quanto ao resto, a coincidência entre este texto e a vida é uma mera realidade.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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