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Vénus e Adónis

Os seus olhos cruzaram-se entre a multidão azafamada. Algo lhes disse que teriam que se conhecer, sentir, ver e tocar. Ficaram parados como se o tempo não existisse ou tivesse apenas suspirado. Havia magnetismo no olhar.

Não falaram, mas entenderam o que ambos pensavam. Era urgente que se desse a aproximação, que se soltasse a chama que começava a arder e tendia a querer continuar.

As mãos deram-se e um choque de prazer percorreu o corpo de ambos como se fosse a primeira vez que sentissem o desejo. Um íman gigante empurrou-os e os corpos ardiam como se cada um tivesse uma floresta a arder.

Encontravam-se num quinto andar, numa rua movimentada da cidade onde todos queriam viver. A casa estava vazia, mas o amor que sentiam e a paixão que seria consumada era mais do que suficiente para a encher.

No primeiro dia, voltaram a olhar-se. Ele tocou no rosto dela, fechou os olhos e viajou com ele para paragens idílicas. Ela colocou a mão no peito dele e sentiu o bater do coração que parecia querer sair e voar de tanto prazer que sentia.

Beijou-lhe a mão e o pescoço. Ela cedia a cada passo como se o gelo que a envolvia se derretesse. Tocou-lhe o seio direito. Estremeceu. O sexo içou-se e a comunicação estabeleceu-se. Havia resposta aos estímulos recebidos. Eram os tais.

Amaram-se como se o mundo fosse acabar em minutos, com gemidos que nem conheciam e gestos de volúpia que aprendiam. Não se cansavam um do outro e os corpos clamavam por mais e ainda mais. A satisfação era temporária e retomavam o amor que estava dentro deles.

Era noite. As luzes da cidade mostravam sombras únicas. O corpo dela era bem feminino, com formas delineadas e certas. Os seios eram pequenas montanhas onde a cabeça dele descansava. Ele, de tão atlético, era um Adónis que se derretia com a sua Vénus de carne e osso.

Dormiram um sono leve, abraçados como se sempre se tivessem um ao outro e o uno que sentiam fosse o mote de viver. A lua zelava por eles, cúmplice dum amor clandestino e forte, tal como as amarras da vida que os apertava cada vez com maior intensidade.

Acordaram e o silêncio sorria-lhes com brandura. Deram as mãos e sorriram. Vestiram-se e subiram para o terraço. Era tarde. A cidade dormia. A noite era deles, toda completa e perfeita. Os olhos eram barcos que navegavam em águas suaves e ternas.

O dia nasceu e a noite saiu lentamente. A luz mínima iluminou-os e fez quebrar o encanto do momento. Nem uma palavra soltaram. Não sabiam quem eram apenas que se queriam e desejavam. Bastava-lhes. O abraço já foi matinal e num ápice a magia se desfez.

Na noite seguinte voltaram a amar-se. Nessa e nas muitas outras, em todas em que souberam ouvir o apelo telepático do desejo. A casa acolhia-os como se fossem dela e protegia-os dos perigos. A luz da cidade acalmava-os e o terraço, onde a lua se espelhava, guardava as suas íntimas confidências.

Uma noite o feitiço quebrou-se. Depois de se amarem como loucos, devorando-se constantemente, olharam-se nos olhos profundos e souberam que tinha chegado ao fim. Ela soltou uma lágrima que caiu no chão e queimou a madeira nova.

Subitamente uma estranha claridade invadiu a divisão. Era de cor escarlate, como a paixão, tocando nele com vigor. Cerrou os punhos e apertou os dentes. Queria falar, mas não conseguia. Ela deu-lhe a mão e nova lágrima caiu. Acalmaram-se e ouviu-se o único som que alguma vez disseram:

– Amo-te!

Nunca mais se viram e as suas vidas podem até se ter cruzado. Quem sabe? As noites de prazer e de paixão ficaram para eles como uma miragem, um sonho que tiveram. A lua sabia, mas não o ia revelar. Foi a testemunha da magia e assim decidiu ficar. O amor era deles, dos que um dia se viram, se desejaram e se amaram.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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