Unbelivable

Unbelivable é uma mini-série arrepiante sobre a história de uma jovem que altera a sua história ao reportar a sua violação. Podia ser mais um programa repleto de violência gratuita e de voyeurismo, ou então poderia ser mais uma história sobre os clichés de uma investigação verdadeira, como tantas outras séries antes dela, mas felizmente estes episódios foram criados com o foco nas áreas cinzentas da histórias – demonstrando quão propensas estão as pessoas à nossa volta estão prontas para julgar a vítima de uma violação – e dando um ponto de vista feminista à natureza da verdade daquelas, poucas, histórias que chegam a ser ouvidas. É importante de referir ainda que é uma história inspirada em factos verídicos ocorridos em 2008 e noticiados através de um artigo vencedor de um Pulitzer.

Logo no início do primeiro episódio, Marie Adler (Kaitlyn Dever) descreve como foi amarrada e violada no seu próprio quarto. E este episódio é brutalmente eficaz a transmitir a mensagem e é com um nó na garganta que vemos uma jovem tão vulnerável, que alterna entre o pânico e o desinteresse, ser interrogada de forma intrusiva por dois polícias, que nunca acreditam na sua palavra, até que ela própria se retrata e nega os eventos que relata. E Kaitlyn Dever é incrivelmente forte, numa performance honesta e crua, completamente diferente daquilo com que nos presenteou em Last Man Standing.

O segundo episódio apresenta-nos a polícia local Karen Duvall (Merri Wever) que está a recolher o testemunho de uma vítima de violação e aqui temos a primeira comparação entre os polícias do caso de Marie e uma polícia sensível e simplesmente melhor a acolher a vítima. Mas se ouvirmos com atenção, temos outra comparação, porque o relato recolhido é muito semelhante ao ataque descrito por Marie. E daqui para a frente, é como se tivéssemos duas séries numa só, uma que acompanha Marie e toda a sua vida e as consequências da alteração da sua história, a outra é a investigação policial que junta a novata Duvall com uma veterana experiente Grace Rasmussem (Toni Collette), também a investigar um caso semelhante numa cidade perto.

E as histórias continuam em paralelo até que faz sentido que elas se cruzem, e deixem-me que vos digam, quando elas se cruzam a catarse é tão potente e perturbadora exatamente pelo timing ser perfeito e porque todos nós sofremos com a Marie até àquele ponto. E a investigação policial, enquanto as duas polícias tentam montar o puzzle dos seus casos, está repleta de dados estatísticos sobre violência doméstica e violações, mas Toni Collette e Merri Wever prendem-nos ao ecrã e não nos perdem, nem quando a série descreve o trabalho policial como sendo aborrecido e repleto de pistas falsas. E estas partes ajudam-nos a superar a dor que todas as cenas com Kaitlyn Dever emanam.

E no fim, todos podemos tirar conclusões sobre o caso de Marie Adler, mas o importante é que Unbelivable não é uma série sobre se Marie estava ou não a contar a verdade. É sobre quem pode contar a sua história de forma a ser ouvida, quem tem o luxo de merecer que acreditem em si. No início do seu relato, Marie Adler pergunta “Estou em sarilhos?”, infelizmente, a resposta à sua pergunta e à de tantas outras mulheres como ela, ainda hoje, é sim.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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