Seriam umas quatro da manhã quando voltei a sentir aquilo outra vez. Foi nesse momento que a parede da casa rodopiou. Levantei a cabeça e vi Lucy completamente turva. Os seus lábios mexiam mas eu não conseguia ouvir o que dizia. Naquele instante, já os móveis eram arabescos desenhados no ar, o meu coração era uma orquestra desafinada, as minhas pernas, frágeis canas que baloiçavam ao vento. Dei-me conta de que fazia um esforço enorme, lutando por me manter lúcido. Involuntariamente, travei a respiração. Lucy nem sequer se atreveu a ajudar-me. Deixar-me desamparado era a sua especialidade. Nenhum de nós disse uma palavra, mas eu esbocei um sorriso. Senti-me achado, no momento em que me devia sentir perdido. Desinteressadamente, abriu o maço, tirou o isqueiro do bolso. Espalhou os cigarros pela mesa, alinhando-os como se fossem um código de barras. Fumou dois cigarros e em poucos minutos caiu num sono pesado.
Fechados em casa há três dias, não dormíamos há mais de quinze horas, submersos na escuridão. Tínhamos os olhos cheios de remelas, ela, o nariz ranhoso, ambos, a boca seca. Comêramos os restos dos dias anteriores, bebêramos tudo o que havia em casa. Talvez seja difícil acreditar, mas, na verdade, estes foram os melhores dias da minha vida.
Passaram alguns segundos, uma eternidade. De súbito, sem que eu percebesse como, John Lennon surgiu por detrás dela. Não turvo, mas perfeitamente nítido, brilhante. Da sua boca saíam letras coloridas que dançavam e que se reuniam em frases:
Picture yourself in a boat on a river
With tangerine trees and marmalade skies
Somebody calls you, you answer quite slowly
A girl with kaleidoscope eyes
Depois, desalinhadas, as letras dançavam em direcção ao tecto da casa, desapareciam e Lennon vomitava outras:
Cellophane flowers of yellow and green
Towering over your head
Look for the girl with the sun in her eyes
And she’s gone
Eu não conseguia ouvir a melodia, mas conseguia ouvir a cor de cada palavra. Senti o meu corpo a pairar pela casa, a fundir-se com as paredes. Uma felicidade incontrolável. Inesperadamente, a faca da cozinha voou até mim e, deitando uma tinta de cor vermelha na ponta, pediu-me para escrever as letras L, U, C, Y na parede da sala. Tentei acordá-la, contar-lhe tudo o que acabara de acontecer, mas ela não se mexia. Chamei, chamei, mas não houve reacção. Ela não se movia e eu comecei a sentir que me faltava resistência suficiente. Só um corpo aguentará até ao fim, pensei.
Enquanto olhava para Lucy, lembrei-me da nossa primeira experiência sexual, dentro do carro, parados à porta de casa dos pais dela. Ainda agora consigo sentir essa adrenalina. Hesitante, pedi-lhe um beijo. Não respondeu nem sim, nem não, olhou-me e passou a mão pelo colar. Segundos depois, eu tinha as calças em baixo e a cabeça dela no meu colo. Subia e descia; subia e descia. Que explosão! Que delírio! Era impossível que não acontecesse. Amava-a ainda mais naquela altura, creio. Gostava, especialmente, da maneira como me masturbava, dos seios empinados, do rabo perfeito. Não me recordava de como e quando nos conhecemos. Muito menos me recordava de quando passámos a viver juntos. Olhei em volta da sala, vi as molduras com as nossas fotos a sorrirem para mim, as roupas espalhadas a dizerem-me adeus, os restos de comida no chão a desaparecerem.
Furioso por me sentir desacompanhado – John Lennon já se tinha evaporado e Lucy parecia anestesiada -, insurgi-me contra a noite, a minha única companhia. A noite é sempre mais longa e poderosa do que o dia e, talvez por isso, decidiu retaliar e avançar na minha direcção. A noite pretendia vencer-me e vinha com más intenções. “O que desejas tu, noite negra? Por que me olhas assim?” – perguntei. “Fala! Fala, pelo amor de Deus!” – exigi. Nem uma palavra. Antes que eu me pudesse defender, a noite colocou as suas mãos enormes no meu pescoço e comprimiu-me a garganta. Lutei, mas não tinha forças. Tentei gritar, mas a voz foi para outro lado. Senti-me a desmaiar. Tive a certeza de que aquele era o meu derradeiro juízo.
Dois dias depois, acordei todo nu no chão da sala a trautear “Lucy in the sky with diamonds”, dos Beatles. As janelas e as persianas completamente fechadas deixavam perceber muito pouca coisa à minha volta. A cabeça pesava-me, a zona da laringe doía-me. Senti uma pressão intensa na bexiga e, apesar das tonturas, fui à casa de banho urinar. A minha visão ainda estava turva quando me olhei ao espelho. Para além das remelas coladas nos olhos como se fossem lapas e de uma espécie de espuma nos cantos da boca, descobri também umas marcas vermelhas no pescoço.
Foi então que, de volta à sala, me deparei com o nome dela desenhado na parede. As letras eram grandes, encarnadas, toscas. Confuso, perscrutei a sala, pardacenta, de forma instintiva. À esquerda, em cima da mesa, alguns cigarros alinhados ordeiramente; no chão, por baixo da mesa, o isqueiro e o maço de cigarros vazio. A roupa amontoava-se pelo chão e em cima dos móveis. Andei dois metros para a direita e pisei um prato com restos gordurosos de esparguete. Tentei não cortar os pés numa faca, mas espetei os dentes de um garfo na planta do pé. A dor foi lancinante. Gritei as maiores asneiras que consegui. Quando a dor acalmou, olhei para o fundo da sala. Deitada de barriga para baixo no sofá, despida da cintura para cima, estava Lucy. Por baixo de Lucy, desde o sofá até ao tapete, uma enorme mancha acastanhada.