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Crónicas

Tempo de Natal

Aproxima-se a quadra em que todos se tornam mais simpáticos e amigos. Um tempo que se perdeu no tempo e que faz com o tempo se torne aquele tempo que tanta importância tinha: tempo de felicidade.

É costume celebrar o Natal com tantos símbolos que até se perdeu, no tal de tempo, a sua razão de serem assim. É, sem qualquer dúvida, a época em que se sente mais vontade de ficar em casa e de lembrar todos os seres que são importantes.

Por isso, é que se escolhe sempre uma casa para que a reunião aconteça e onde as conversas são tão livres e soltas que o tempo, mais uma vez esse fantasma, deixa de ser importante. Colocam-se em dia os acontecimentos e as novidades, mas a vontade de voltar a ser pequeno é a primeira a chegar.

Nessa época, o tempo era tão relativo que simplesmente não era importante. Em Dezembro, todos estavam juntos e as avós e as tias faziam os doces que enchiam os olhos das crianças bem como as barrigas. Tempo de inocência que se esticava para um acerta eternidade que ninguém queria terminada.

O Papa Júlio I, em 350, declarou o Natal como a esta de celebração do nascimento de Jesus Cristo. Cada vida que surge é uma bênção, mas a deste menino tornou-se especial. Foi ele o escolhido para libertar o jugo dos opressores e oferecer esperança a um mundo que tendia a descambar. Uma luta feroz contra inimigos poderosos.

Nos lares, enfeitam-se as árvores de Natal, que costumam ser pinheiros, com tantos enfeites conforme o gosto de cada um. Contudo, não pode faltar a estrela, aquela que guiou os reis magos até ao local onde o menino estava. Levaram-lhe presentes e a tradição ficou para todos os tempos.

Agora não é o ouro, o incenso nem a mirra que são ofertados, mas sim bens que a sociedade ocidental venera e a satisfaz. As velas servem para indicar o caminho e o presépio, a família religiosa, figura em cada lar. Com mais ou menos variantes, as figuras centrais são sempre as mesmas: Maria, José e o Menino.

A ceia reúne todos, mesmo aqueles que costumam estar longe. Há um esforço para que tudo corra pelo melhor e que as recordações sejam iluminadas por quem as quer reavivar. Os mais pequenos acreditam no Pai Natal, a figura fofinha e querida, vestida de vermelho, que oferece presentes para alegrar a pequenada.

É vê-los a abrir os olhos, cheios de alegria, por receberem bonecos, jogos, ou seja, lá o que for, que tanto desejaram durante o ano. Um tempo de 326 dias que foi rolando a velocidade de cruzeiro para uns e em modo de aceleração para outros.

No entanto, há quem não tenha esse conforto e que a vida não lhe seja tão benéfica que possa ter um tecto para se abrigar. Muitos vivem nas ruas sem qualquer condição que se possa apelidar de humana. Sobrevivem, pois ainda sentem que podem ser assim apelidados: seres humanos.

Para estes, que cada vez mais engrossam as fileiras dos espoliados, ser natal ou outro qualquer dia é indiferente. Tentam sobreviver com o que lhe aparece e seguem a sua vida que se vai perdendo no tempo que tão bem os soube aliciar e enrolar. As convenções e data desapareceram e deram lugar a necessidades básicas que têm de ser satisfeitas.

Vivemos numa sociedade de consumo, de usar e de deitar fora. Esta vaga de desperdício arrasta consigo também pessoas que se transformam em bens perecíveis e descartáveis. Bens que não geram lucro, mas sim prejuízo. Há que os afastar da vista para que as fotografias continuem a ficar bonitas e perfeitas.

Perdeu-se o interesse e o humanidade, o querer saber do outro, a empatia. Esta só provoca dor e sofrimento e não se quer ter o coração a sangrar de tanta injustiça e ausência de bom senso. O tempo agora flui como se nada tivesse a ganhar nem a perder e os invisíveis, os sem abrigo e similares, são manchas escuras, nódoas que se pretendem apagar.

Quem nada tem festeja o Natal quando alguém lhes dá a mão, quando se sentem vistos, ouvidos e sentidos, quando se sentem gente e ainda não se perderam naquele tempo que tudo engole e rapta. Esse tempo é tão maléfico como castrador. Sabe matar de modos especiais mesmo que a pessoa ainda esteja viva.

Não é apenas este mês que serve para parar e reflectir, são todos. Vivemos em sociedade e não conhecemos os nossos vizinhos, não sabemos nada deles nem queremos saber. Há que dar um pouco de si, oferecer o que não faz falta, colmatar as falhas do sistema e ser honesto e sincero. Há que ser humano.

Natal é todos os dias, é a atitude que se toma, a postura que se pratica e a força que emana do coração. Natal é apenas uma ideia que deve ser partilhada e repartida durante todo o ano. A hipocrisia vai ganhando terreno à verdade e a teia fica tão fechada que consegue a todos enrolar.

Natal. Natal é o tempo de renascer e de saber viver, essa maravilhosa arte que tem caído em profundo abandono e esquecimento. Não a deixemos morrer.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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