Ser um homem

A sociedade ainda é baseada em muitos pressupostos e papéis de género. As mulheres devem ter um determinado comportamento e os homens um outro. O homem é o macho, o sexo forte, aquele que é o dominante e a mulher será o outro, o fraco, aquele que se subjuga e acata as ordens. Este pensamento tão linear tem vindo a ser alterado, mas os recuos continuam. Mudar mentalidades é complicado e torna-se uma tarefa sem fim à vista.

Certas máximas continuam a vigorar e perpetuam-se sem que alguém as consiga contestar ou queira alterar. É mais fácil aceitar do que questionar, dá menos trabalho. Um homem não chora, é uma delas. Não chora porquê? Faz mal a alguma coisa? Faz cair o cabelo? Mata alguém? Que disparate tão grande e ridículo! Mostrar emoções é considerado indigno e inferior, relegando essa actividade para as mulheres, seres fracos que se comovem com bastante facilidade.

Uma lágrima não é uma desonra e muito menos um sinal de fraqueza. Antes pelo contrário, é uma demonstração de coragem de carácter e de grande sensibilidade. Um homem tem que ser bruto e cheirar a cavalo? E a higiene é um atributo feminino? Porque se mantêm estas ideias disparatadas que muitos se riem, mas cumprem? Um homem é um macho, um garanhão e não lhe pode escapar nenhuma fêmea.

Homem que é homem tem que fazer filhos, usar os ditos cujos para deixar a sua marca no mundo e de preferência espalhar a semente em vários canteiros. Fidelidade é coisa de meninos e de mulheres que acreditam no romantismo. Gostar de mulheres, apreciar um bom rabo e umas coxas que se mexem de modo sensual é que é de valor! Homem que é homem é um macho e exerce.

Para marcar a sua posição deita o seu jacto de urina de pé, entre os carros ou nos cantos de um local qualquer. Casas de banho só servem para enfeitar. Manda as suas bocas, diz que faz e que acontece e entra constantemente em jogos de sedução que só ele pode comandar. Come como um labrego e após a refeição palita os dentes, arrota em tom bem elevado e ainda aproveita para soltar outras ventosidades.

Usa a unha do dedo mindinho bem comprida para limpar o canal auditivo e o anel que o identifica como um ser único e majestoso. Bebe até cair para o lado e fica a dormir num sítio qualquer até que alguém o venha recolher. Esta é a imagem do homem que tentam, a todo o custo, passar e ridicularizar. Será que ainda encontramos seres destes, assim em estado tão bruto ou já temos outras variantes bem melhores?

A um homem é exigida força bruta e todo o tipo de habilidades físicas. Tem que saber fazer móveis, colocar chão, pintar paredes, tratar da electricidade, saber arranjar a canalização e ainda transportar toneladas de sacos e de outras tantas coisas muito pesadas. Pendura os quadros, arrasta os móveis, carrega as máquinas e corta a lenha. Actividades seculares que não saem do contexto.

Os homens são seres dotados de sensibilidade e de todas as características que as mulheres também possuem. No entanto fazer várias coisas ao mesmo tempo é-lhes difícil de conseguir. O papel de género está cada vez mais na ordem do dia e nem sempre é consensual. O homem continua a ser o burro de carga e a mulher o ser frágil que precisa ser amparada. Tudo errado.

Sente-se uma certa discriminação onde os homens são relegados para planos inferiores e acusados de serem os culpados de todos os males que assolam o mundo. Há que encontrar culpados e qualquer um serve. Se é forte então ele que arque com a responsabilidade. Tudo dito.

É esta a imagem que se pretende passar ou será uma outra, bem diferente, do homem do século XXI? Onde está o problema do homem que se cuida e que se produz? Ficará careca se for atencioso e carinhoso com os seus filhos? Já não se querem homens brutos e insensíveis, mas sim os que se sabem ser, como pessoas inteiras e não reduzidos a estereótipos e retalhos de ignorância.

Os homens são tão diferentes entre si como todos os animais que povoam a natureza e nos encantam. Não é de um exército que estamos a falar, de seres todos iguais que marcham no mesmo sentido, mas precisamente da sua grande diversidade e do fascínio que ela provoca em todos que a contemplam.

Os homens e as mulheres são diferentes, é um facto, mas complementam-se e, francamente, deveria ser muito aborrecido viver numa sociedade onde tudo fosse cinzento ou pardo ou até mesmo cor de sépia.

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