Quem sou, para onde vou e o que faço sem o meu Smartphone?

À medida que a sociedade progride, também a linguagem a acompanha, com novas palavras a serem incrementadas ao dicionário, enquanto outras se tornam obsoletas. Em tempos de dependência electrónica é curioso verificar o nosso dialecto a ser enriquecido com palavras relacionadas com a tecnologia, muitas vezes através de anglicismos. A nossa forma de comunicar está carregada de anglicismos em todas as vertentes da sociedade (overload), desde aspectos empresariais e laborais até à conversa mais banal. O upgrade, os markets, os CEO’s, o premium, o vintage, o download e os posts são palavras vulgares na nossa linguagem, o que faz com que o nosso vernáculo perca força. Talvez seja o caminho natural a seguir com vista a uma sociedade e linguagem cada vez mais sintéctica.

Há uns meses deparei-me com estas duas expressões que cativaram a minha atenção: o phubbing e a nomofobia. O phubbing define-se como o acto de ignorar a presença de alguém em detrimento do Smartphone (aqui utilizado com letra maiúscula, tal é o endeusamento que a ferramenta tem adquirido ao longo do tempo). Mesmo que não seja sempre com má intenção, o phubbing é uma práctica comum e bastante observável nos dias correntes. Quantas vezes não se observa uma simples mesa de café ou restaurante com pessoas a dar prioridade aos Smartphones em vez de interagirem no mesmo espaço-tempo: a melhor mesa social é garantidamente uma mesa repleta de amigos, desde que haja um wi-fi potente. Ignorar a verdadeira presença do outro está a tornar-se no Novo Normal e o telemóvel é uma das causas para a degradação da empatia e do fluxo natural da conversa humana. Um dos actos mais comum numa interacção face a face é o de mostrar ao outro o conteúdo do  feed do seu telemóvel, à procura de assunto ou apenas de uma reacção.

Tal não tem que ser visto exclusivamente como mau, mas em demasia, esta subordinação ao aparelho retira-nos espontaneidade e o direito a sentir tédio na companhia do outro, que também tem a sua importância no desenvolvimento de uma relação. De facto, ao procurar validação social através de conteúdo online, vamo-nos olvidando de quão recompensador é a companhia analógica e os afectos dados/recebidos das pessoas que realmente gostamos e fazem parte da nossa vida (sem esquecer a importância de um bom volume de dados móveis). Tanto que a nossa linguagem corporal tende a sugerir expressões de desconforto e isolamento social aquando da ausência de um gadget. Esta dependência fez surgir um novo tipo de fobia:


A nomofobia trata-se daquele desconforto que se sente quando não se sabe onde está o telemóvel (no+mobile+fobia), ou até o sentimento de pânico quando a bateria do mesmo está quase a acabar e o transformador ficou esquecido em casa. Sentimo-nos o Popeye quando não tem espinafres. Ao estarmos sem acesso ao online e incontactáveis à distância, é como se falta uma parte essencial do nosso âmago. Qual a razão para esse efeito impactante e assustador nas nossas vidas? É uma restrição assim tão grande? Será pela sensação de poder e invencibilidade que os ecrãs e as redes sociais nos proporcionam, através da autocracia dos comentários/tweets e da ilusória sensação do que dizemos e expomos realmente interessa e é lido? Estaremos impregnados pelo efeito hipnotizante das notificações e devido à entropia do Universo, essa dependência é irreversível? Este estado semi-entorpecido será um bom antidoto para suportar o peso da realidade analógica?

Estamos mais confortáveis atrás do ecrã, onde todos somos heróis. Na comunicação digital temos mais ferramentas de interacção à disposição. É um mundo fantástico: partilhamos memes (esta nova forma resumida de compreender o mundo), música, vídeos que espelham as nossas opiniões, fotografias e até mexericos sobre amigos em comum pois, apesar de estarem longe, lá vão partilhando novidades corriqueiras acerca da sua vida. Sentir e matar saudades já não tem o mesmo impacto. Esta familiarização com a vida alheia remete para um sentimento amorfo e disforme quando existem reencontros físicos. Não há aquela cumplicidade e empatia de contar as boas novas cara a cara, criando entusiasmo e excitação. É um dos problemas do imediatismo da comunicação e desta sociedade do instantâneo.

Outro hábito que se perdeu foi o de perguntar as horas a qualquer transeunte. Há anos que ninguém me faz essa pergunta (felizmente no outro dia pediram-me indicações geográficas). Carregar no ecrã para ver as horas é o mais habitual, servindo esta acção de engodo para passarmos uns largos minutos a navegar nas redes sociais. Vivemos numa época em que os automóveis estão cada vez mais silenciosos e os peões caminham na via pública de olhos no Smartphone. Que bela combinação.

O que me espanta também é a quantidade de aplicações que há. Aplicações para correr, para emagrecer, para engordar, para tocar piano, para simular isqueiros, para meditar. Até há aplicações para desfrutarmos do céu nocturno através do nosso ecrã. Se não tivermos bateria, lá teremos nós que o contemplar directamente com os olhos. Que chatice!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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