Quem se lixa é o Mexilhão?

Quinze minutos para administrar a terapêutica (por exemplo, vacinar) e 30 minutos para dar consulta ou tratar feridas, são alguns dos exemplos do tempo que os enfermeiros precisam para desempenhar algumas das suas funções nas consultas externas das unidades hospitalares. E de acordo com estes tempos médios e o tipo de atividades que se desempenham em determinado posto de trabalho assim se vão determinar as dotações de enfermeiros nos vários serviços, de acordo com o regulamento da Ordem dos Enfermeiros publicado na semana passada em Diário da República (…).”

Não, o leitor não está a sonhar. A partir de agora, sempre que se deslocar a um Hospital, ou Centro de Saúde para levar a cabo um qualquer tratamento vai ter de “levar” com um Enfermeiro(a), que terá de estar concentrado(a) no que está a fazer e no cronómetro.

É que isto de dar uma Vacina e/ou mudar um curativo é algo de tão fácil e automático que não precisa de mais do que 15, 30 minutos, respectivamente. Tal se deve, porque, vejam só, nós Seres Humanos somos todos iguais e fomos todos produzidos na mesma linha de montagem de uma qualquer fábrica, pelo que reagimos todos da mesma forma a uma vacina, ou à mudança de um curativo.

Patético. Absurdo. Ridículo. Caricato. Não existem adjectivos para classificar a mente brilhante que produziu tão fabuloso corpo legislativo. Só falta dizer que tal ideia surgiu na cabecinha de um qualquer Gestor, enquanto tomava o seu banho e lhe deu para uma “eureca” instantânea.

É assim que o Estado Português pretende melhorar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)? É a pressionar os Profissionais de Saúde, que no Sector Público trabalham sem condições algumas e quase sem material, que o nosso Executivo pretende dar utilidade ao elevadíssimo e absurdo valor das Taxas Moderadoras que pagamos pela utilização do SNS?

Claro está, tudo em nome da boa gestão financeira do país e dos Recursos Humanos, porque, como já disse o “outro”, quem se lixa e se lixou não é o Mexilhão. Quem se lixa é o Ricaço que vai ao Hospital Privado da Boavista, quando quer curar uma gripe, ou tomar uma vacina na Paz do Senhor e com a segurança que uma ida ao Hospital/Centro de Saúde exige. Repetindo: o Mexilhão nunca se lixa. Trama-se, roubam-se e fazem-se graçolas sobre o dito. Lixar nunca. Se lixa. Este é um facto mais do que consumado.

Já quando vamos ao Aeroporto e vemos que a maior parte dos Mexilhões que partem para o Estrangeiro são Profissionais de Saúde, ficamos aliviados, porque sabemos que estamos no fundo e no cabo a “despachar” os preguiçosos que estavam a dar prejuízo ao nosso fabuloso, operacional, competente, bem gerido e, sobretudo, bem cronometrado Serviço Nacional de Saúde.

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