Quando o mundo desliga: A calma que os livros nos oferecem


Na manhã de 28 de abril, sofremos um apagão. Desligados do mundo, perdidos na desinformação global, vimo-nos sem eletricidade, internet e com telecomunicações limitadas. Voltámos ao velho rádio a pilhas, ou agarrados ao volante do carro ouvimos atentos as notícias. O que parecia um filme distópico tornou-se realidade. O apagão atingiu milhões de pessoas e mostrou, de forma nua e crua, o quão dependentes somos da tecnologia para manter as nossas rotinas em funcionamento.

Durante horas, o barulho digital deu lugar ao silêncio. O rebuliço cedeu ao incógnito. Desprovidas de energia, muitas pessoas foram forçadas a pausar, esperar, observar. E nesse intervalo, inesperado e inquietante, surgiu uma pergunta que poucos ousam fazer: o que nos resta quando tudo se desliga?

Para alguns, a resposta veio em forma de páginas. Prateleiras de livros foram vistoriadas. Livros foram abertos. E, no meio do caos e da ansiedade generalizada, alguns leitores redescobriram um antídoto ancestral para o silêncio: o poder da leitura.

Parece-me imensamente apropriado iniciar uma crónica no Repórter Sombra com a temática da biblioterapia, usando o apagão. Espero fazer luz, quanto ao poder terapêutico das palavras.

Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite

esta declaração da maestria.

de Deus, que com magnífica ironia

deu-me a um só tempo os livros e a noite.

Jorge Luis Borges, Poema dos Dons

Explicando o conceito e em modo de contextualização, a biblioterapia é uma prática que utiliza a literatura como ferramenta terapêutica. Seja de maneira formal, com orientação profissional, ou – muitas vezes – intuitiva, como hábito pessoal, ela promove autoconhecimento, alívio emocional e uma forma de reconexão com o presente. Ler acalma porque nos devolve o ritmo interior: página após página, respiramos com maior consciência e pausadamente, pendemo-nos para o pensamento com maior profundidade, sentimos com maior clareza.

Através das palavras, surge-nos a calma, não como a ausência de problemas, mas como promoção à nossa presença no momento atual. A literatura ancora-nos.

Em livros como O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, somos convidados a compreender o luto e a fragilidade da vida. Em O cavaleiro da Armadura Enferrujada, de Robert Fisher, mergulhamos numa parábola leve e inspiradora sobre o autoconhecimento, a libertação interior e o poder do silêncio. Já no poema O Baú, de Mário Quintana, evoca a calma, as recordações e a melancolia serena.

Essas leituras não nos prometem fugir da realidade, mas energizam-nos a enfrentá-la. Em tempos de instabilidade — como um apagão global — elas podem ser mais eficazes do que qualquer aplicativo de meditação.

Deixo-lhe um excerto do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, assinado por Bernardo Soares, que nos remete à tranquilidade:

Sossego, sim, sossego. Uma grande calma, suave como uma inutilidade, desce em mim ao fundo do meu ser. As páginas lidas, os deveres cumpridos, os passos e os acasos de viver — tudo isso se me tornou numa vaga penumbra, num halo mal visível, que cerca qualquer coisa tranquila que não sei o que é.

O apagão que ocorreu não foi apenas digital. Foi um acontecimento emocional, mental, quase espiritual. Diante de um mundo hiperconectado, fomos lembrados de que, para além das máquinas, existe um mundo mais antigo, mais silencioso, mais nosso. E os livros — com as suas histórias, as suas ideias, as suas pausas — seguem firmes, como lanternas na escuridão.

Que, da próxima vez que o mundo desligar, estejamos com um bom livro por perto.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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Comments 2
  1. Olá Claudia! Um texto muito actual que por pouco nos remetia para o Ensaio sobre a cegueira. Não chegou a tanto, mas o pânico que se gerou e a falta de informação, quase que gerou o caos. Estes momentos fazem-nos retornar ao passado, onde os livros eram reis.
    Aqui onde estou não fui atingida pelo acontecimento, mas já passei por isso no pós 25 de Abril, quando a empresa local interrompia a energia das 20h às 22h todos os dias, para poupar combustível. Numa altura conturbada, aquelas horas eram um descanso para todos
    Parabéns pelo artigo.

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