De manhã, no caminho para o trabalho – o mesmo de todos os dias – deparei-me com uma senhora farta em tristeza e certezas. Estava, no autocarro, sentada num banco. Um rapaz, noutro. Ela deve estar na faixa etária dos 30. Ele é um adolescente.
A mulher olhava fixamente para ele. Repetia em voz alta “é o meu filho!”. Foi chamada de maluca por muitos.
Não chorou por um instante, mesmo com todos a apontarem-lhe o dedo. Tirou da mala, um álbum de fotografias, que diz trazer sempre consigo, para onde quer que vá. Fez questão de mostrar o filho a todos quantos se encontravam atrás dela.
“Oh senhora, o seu filho é pequeno. O rapaz sentado é um homem feito.” Inflamaram-se os que lhe chamaram de maluca.
“O meu filho foi-me tirado com um ano. Agora tem 18. A única maneira que tenho de o ter sempre comigo é com este álbum. Na fotografia, é o meu filho e ali no banco também. Eu sei!”
Fez-se silêncio. O moço saiu do autocarro sem ter escutado nada, tinha música nos ouvidos.
Eu saí na paragem seguinte com as mãos vazias e um aperto no peito. Quantos “filhos” verá a senhora em cada adolescente?
Agora, à vinda para casa, cruzo-me com a mesma senhora. Sentei-me à sua frente.
“Estava de manhã, no autocarro, não estava? Aquele era mesmo o meu filho. Eu sei!”
“Eu acredito em sim. As mães nunca se enganam.”
“Olha ali a lua. Está cheia. Vês? Era mesmo o meu filho.”
A viagem naquele autocarro foi terminada para mim. Mas antes despedi-me dela, desejando que a lua estivesse sempre cheia.
“Obrigada. Sou a Paula.”
“Beijinhos, Paula. Sou a Sofia”.
Saí com uma vontade imensa de chorar. Que vida a da Paula… Eternamente agarrada ao filho pequeno e a vê-lo há 18 anos em cada menino com que se cruza, toldada pela (in)certeza de que aquele é o filho…
Há dias em que nos são mostradas lições. Hoje, foi-me um deles. Conheci a Paula e o filho pequeno. O filho pequeno. E o crescido também. As mães nunca se enganam.