Acordamos todos os dias com a impressão de que escolhemos. A roupa que vestimos. O café que bebemos. A música que pomos a tocar. Mas se nos detivermos por um momento, um instante breve, talvez percebamos haver algo de coreografado no que julgamos espontâneo. Uma espécie de algoritmo invisível a marcar o compasso dos nossos gestos.
Ser livre, hoje, parece ser consumir à vontade. E desejar, desejar muito, muitíssimo, tornou–se numa forma respeitável de existir. A liberdade está associada ao poder de escolher. Mas, raramente, se fala da origem das opções entre as quais escolhemos. Quem decidiu que precisamos de tanto? Da marca X ou Y? De frequentar os mesmos locais? Ou vermos as mesmas coisas?
Vivemos rodeados por estímulos que nos empurram para o excesso. O excesso de coisas, de planos, de expectativas. Pior é existir uma promessa permanente no ar: a de que seremos mais amados, mais válidos, mais imortais, se tivermos estatuto, presença, prazer. Um trabalhador tornou-se, acima de tudo, consumidor. E a sua identidade, muitas vezes, mede-se pelas coisas que consegue acumular no final do mês.
«Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade… (…) Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: “você é explorado, Soares”. Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível. Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.»
— Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Há um preço a pagar e o preço não está apenas na fatura. Está no corpo exausto, nas ausências de nós próprios, na ansiedade com que nos olhamos ao espelho.
Mais parece que criámos necessidades que não sabíamos ter. Somos personagens de um espetáculo bem ensaiado, em que o desejo é induzido, com delicadeza, pelas imagens, slogans, vídeos. Pouco a pouco, a vontade dos outros instala-se como se fosse nossa. E chamamos a isso liberdade.
Mas há quem se recuse a viver sob essa luz fluorescente. Multiplicam-se os grupos que cultivam o silêncio, não como a ausência de som, mas como ato de presença. O silêncio tornou-se, para muitos, num terreno fértil de resistência. Há livros que o defendem como valor essencial. Retiros que o praticam como cura. E há uma escuta diferente que nasce dessa recusa de ruído; uma escuta interior, que não depende da validação do outro.
Do mesmo modo, emergem vozes minimalistas. Não confundamos como uma moda estética, mas como uma vida estética. Aqueles que aprendem a viver com pouco são, paradoxalmente, os que mais têm. Têm tempo. Têm espaço. Têm clareza.
Liberdade, afinal, pode ser também isso: abrir mão do excesso. Reaprender o suficiente.
«Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.»
— Carlos Drummond de Andrade
Na infância, sabíamos o que era liberdade. Corríamos sem meta, ríamos sem vergonha. Depois, fomos educados a querer. A desejar, por comparação. A procurar aplausos. Hoje, o mundo grita que precisamos de mais. Talvez o que nos falte seja menos, não seja fazer tudo, seja fazer o que faz sentido.
É livre aquele que é grande e inteiro, como poetiza Ricardo Reis. Ou, Álvaro de Campos, in Poemas (Inéditos):
«(…)
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço.»
Senão(adaptando uma frase de Mia Couto), num primeiro cenário não existimos, num segundo, somos invisíveis.