Os medos de Virginia Woolf

Há pessoas que passam assim pela vida, confusas, perturbadas, etéreas. E partem da mesma forma que chegaram a este mundo, sem a consciência do quanto tocaram e continuarão a tocar por tempo indeterminado a vida dos outros.

Virginia Woolf foi uma dessas pessoas. Que vagueou pela vida e se reinventou no que escreveu, na tentativa mais pura de não ceder à loucura. Porque a loucura é forte, resgata o centro da alma, vagueia voraz nas ideias, o ser esvai-se na luta da entrega e cai num abismo cada vez mais difícil de se sair.

Virginia lutou toda a vida contra o abismo. Ao perceber que não conseguia lutar mais, incorporou a densidade das suas obras quando a vinte e oito de Março de 1941, com cinquenta e sete anos, se afogou no rio Ouse. Nos bolsos do casaco cheios de pedras, a certeza de não querer falhar, na carta que deixa a Leonard, o marido e melhor amigo, a lealdade e a clara percepção de que o sofrimento é o maior inimigo, principalmente quando não se quer que os outros se arrastem também com ele.

Leonard Woolf, com quem casa em 1912 e com quem funda cinco anos depois a editora HogarthPress, que impulsiona ao mundo poetas e escritores como Katherine Mansfield e T. S. Eliott. Leonard Wolf que roubava as suas obras para as publicar já que Virginia, em busca de uma perfeição eterna, jamais parava de as rever. O melhor amigo que a via e aceitava, independentemente de ser ponto assente hoje em dia que Virginia teria pelo sexo e pelas relações amorosas uma postura distante e fria.

Na obra da escritora que lia e escrevia avidamente, houve tempo de criação para ensaios como Um quarto que seja seu (1929), onde explora a dificuldade de criação literária e intelectual por parte das mulheres em função do poder económico e social masculino e romances como As ondas (1931), experimental e inovador em volta de sete personagens e da sua expurgação entre o nascer e o pôr do sol.

Virginia Woolf, modernista, toda a vida polémica pela loucura, por posturas públicas feministas, pelas opiniões em relação ao fascismo, ao judaísmo e ao cristianismo, parte integrante do Grupo Intelectual de Bloomsbury, inovadora da sua língua materna e da exploração brilhante dos seus personagens.

A mulher que nunca esqueceu os seus medos. Os medos de Virginia Woolf. Tão expressos na última carta que deixa a Leonard Woolf, antes de avançar para o rio:

tenho a certeza que estou a enlouquecer novamente. Sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei (…) nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler(…).

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