O resto – Parte 4

– Então que se passa? Isto tudo é para quê? Não te posso deixar sozinho avô. Tiras as coisas do sítio e depois não sabes do que se trata. Sentes-te bem? Por que é que não atendeste o telefone? Sou eu, a tua neta.

Ele olhava para a rapariga com ar incrédulo. Quem seria? Ela fez-lhe uma festa na cabeça e suspirou. Começou a arrumar os papéis e a velha mala voltou a estar cheia. Olhou para as fotografias e sorriu. Encolheu os ombros. Parecia estar habituada àquele ritual tão estranho. Ele olhava para aquilo tudo com olhos de incompreensão. Quem era aquela rapariga tão bonita e espigadota?

– Avô olha aqui para esta foto. Estás a ver? És tu e a avó num congresso. Tu eras o melhor especialista. Não te lembras? Recebeste tantos prémios! Olha a avó aqui ao teu lado. Reconhecida internacionalmente. Aqui estavam na Noruega. Prémio Nobel. Diz-te alguma coisa? Olha o rei e a rainha. Vês?

A rapariga não desistia de falar com ele na tentativa de lhe ligar o cérebro. Tentou colocar tudo novamente nos mesmos locais para deixar a mesa livre. Disse que eram horas de comer e ia colocar a mesa. Continuava a palrar com ele apesar de não receber nenhuma resposta. A cabeça dele estava confusa. Lembrava-se de uma mulher por quem se tinha apaixonado, mas não era aquela. Olhou para si. Quem era?

Uma senhora entrou na sala e um diálogo foi estabelecido. Era alta, com ar muito decidido e a mais nova era parecida com ela. Dir-se-ia que eram familiares. O ar preocupado trazia-lhe tristeza ao semblante. Sentou-se ao lado dele. Agora ele tinha sorrido e pareceu-lhe que a tinha reconhecido. Depois desapareceu tudo e voltou a olhar para a mala que estava no chão. Fechada.

Na sua cabeça ainda era o dia em que estavam na praia e que ela, como sempre, o tinha deixado tão excitado que não lhe resistia. Não havia ninguém e mesmo que houvesse eles não se importavam. Amaram-se ali, simplesmente, ao som das ondas e do quente da areia. Um amor tórrido e sincero que foi durando por muitos anos. O seu corpo deu um ligeiro pulo e a neta assustou-se.

– Lá está ele outra vez! Sabes o que é?

– Recordações. A ureia está muito alta e continua na adolescência. Deixá-lo. Ao menos são memórias que o tranquilizam. Vais ver que acalma não tarda nada.

– Não sei, porque te dás a tanto trabalho. Ele não é nenhum dos teus pacientes.

– Pois não. É o teu avô, o pai da tua mãe e merece todo o respeito.

– Desculpa. Sabes como eu gosto dele! Custa-me ver um homem brilhante a sofrer com Alzheimer e não se conseguir fazer nada.

– E como era vivo e audaz! Havias de o ter conhecido naquela altura. Primeiro era um palerma, mas logo que conseguiu o diploma tornou-se um homem destemido.

– E tu gostaste logo dele?

– Perdidamente. Acho que o “violei” na casa de banho da biblioteca. Eheeh!

– Não digas isso que fico envergonhada. As coisas que tu dizes avó…

– És mesmo neta dele! Minha querida o amor é urgência e nós tivemos algo de muito bom.

– E agora? Com te sentes? Foi-se tudo.

– Não vejo assim. Ele está comigo.

– Sim, está, mas não é ele. É simplesmente um resto do que foi.

– Resto? Para mim ele é e será sempre o grande amor da minha vida.

Ele começou a sorrir e lembrou-se daquele dia. Sim, na casa de banho da biblioteca. Foi tão forte! Aquela miúda deixava-o assim, descontrolado e num tal estado que se deixava levar por tudo o que ela dizia. Foram felizes. Alguma coisa lhe aflorava na ideia. A neta olhou para ele e sorriu. “Avô, estás bem? É uma coisa boa? Conta lá!” Não ia contar aquilo a uma miúda, mas quem era ela que estava sempre a rir para ele?

– Avó, gabo-te a paciência. Todos os dias fazes o mesmo, mas ele nunca se lembra de nada. Não te serve de nada.

– Estás enganada filha. Vale sempre a pena tentar. Está tudo lá, mas desarrumado. Está a sorrir. São memórias agradáveis.

– Como sabes?

– Sei. Uma vida junta de tantos anos e sabemos ler o outro.

– Ele não se lembra de ti. Não sabe quem tu és!

– Mas eu sei quem ele é!

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